Ainda as alterações climáticas

As tragédias do Verão passado que abalaram o país e os sucessivos distúrbios que, aqui e ali, aconteceram, anormalmente, nas várias regiões do globo, não deixam quaisquer dúvidas acerca das mutações climáticas que o planeta está a sofrer. Não é preciso ser especialista para interiorizar os anormais fenómenos que a natureza nos propicia e aceitar como válido o alerta de que o mais letal inimigo que o ser humano vai enfrentar resultará dessas alterações, já tão óbvias e tão violentas que só os inconscientes não veem e os loucos não querem aceitar. Mas a ciência e os especialistas dizem-nos, e há muito que nos alertam, para a absoluta necessidade de mudarmos as nossas condutas sob pena de pormos em risco a vida tal como a conhecemos e o planeta Terra.

O mundo de hoje tem alguns dirigentes que nos assustam, não pela sua ignorância, nesta matéria ou noutra, mas antes pelo seu desvario mental. Quando nos debruçamos sobre a conduta de Trump, nos Estados Unidos da América, de King Jon-un, na Coreia do Norte, de Nicolas Maduro, na Venezuela, ou de Duterte, nas Filipas, o que nos aterroriza não é a sua ideologia, mas as carradas de loucura que aquelas cabeças suportam, e que constituem para todos uma ostensiva ameaça ao mundo globalizado. Cada um à sua maneira contribui para as consequências negativas relativamente ao tema em título. De todos, só Trump assume a pesporrência de um ignaro que, apesar de tudo, não é, contrariando com as suas decisões possidentes o que todo o mundo civilizado vê e todos sentimos quanto aos fenómenos climatéricos. A mãe natureza julgo não ser castigadora na dicotomia do bem e do mal mas, na verdade, se há países flagelados pelos “desvarios” daquela são os Estados Unidos. Apesar da desgraça atingir o seu país e o seu povo, a dor dos seus não parece preocupar Trump.

Este quadro do que, em traços largos, se passa à escala global, também nos diz respeito, sobretudo quando todos recordamos os que sucumbiram no verão passado, vítimas do caos provocado por um conjunto de fenómenos climatéricos que nos atingiram e para os quais não estamos preparados. A tragédia de tão violenta, para além da destruição que causou, deixou um sinal claro do que pode voltar a acontecer. Teremos de novo, no próximo verão, o espetáculo de que tantos gostam, muito particularmente os que com ele lucram, acompanhado de um concerto de vozes recriminatórias apontadas a quem dizem não ter a capacidade de defender o povo do seu país.

A pressão que o atual governo está a fazer para que se tomem as medidas necessárias para minimizar futuras tragédias é muito bem-vinda e de aplaudir. Todavia, se quem de direito não for assertivo perante quem deve assumir as suas responsabilidades e prevenir, na medida do possível, novas tragédias, à boa maneira portuguesa, a desgraça voltará a rondar-nos a porta, mais cedo do que tarde.

As autarquias locais não podem eximir-se das suas responsabilidades. A legislação que lhes comete poderes e competências para atuar existe e está em vigor desde 2006. Cabe-lhes assumir o seu cumprimento, na defesa de cada um de nós e do bem comum. Não se entende o porquê de no Verão passado as autarquias terem sido poupadas das críticas e da responsabilidade pela incúria na não aplicação da lei vigente. As autarquias podem sempre argumentar o que lhes parecer mais conveniente, mas não poderão esquivar-se aos seus deveres, começando por não prever nos respetivos Planos e Orçamentos as ações e as verbas para cumprir a lei e se ajustarem aos sinais do tempo. A fazerem opções, o que é tantas vezes tradicional, mas supérfluo, e até reclamado por muitos como seu direito, não pode sobrepor-se à defesa da vida humana e à proteção do coletivo. O ano passado passaram incólumes das críticas entre as labaredas da desgraça, mas pode não voltar a acontecer.

O atual Ministro da Agricultura, também pressionado por outras entidades e figuras públicas, ainda que de uma forma subtil pôs o dedo na ferida. Numa intervenção pública recente, ouvindo queixas de autarcas que não revelavam capacidade para levar à prática o esforço nacional da limpeza da floresta, o Ministro respondeu, instando-os a cumprir legislação em vigor e, ao mesmo tempo, aconselhando-os, como se tal fosse necessário, a substituir algumas realizações tradicionais pela urgente limpeza da floresta.

O problema é sério demais para nos escudarmos em argumentos supérfluos e fúteis. Se não lhe concedermos a importância devida e se não mudarmos atitudes, no próximo Verão recriminar-nos-emos, a nós próprios, pela nossa incúria e choraremos, sem remédio, as consequências que daí resultarem.

 

ntónio Magalhães, 72 anos, foi presidente da Assembleia Municipal de Guimarães no mandato 2013-2017. Liderou a Câmara Municipal de Guimarães entre 1990 e 2013, sempre eleito pelas listas do PS, e foi ainda deputado à Assembleia da República entre 1976 e 1987, pelo mesmo partido. Atualmente, é também membro do Conselho Geral do Instituto Politécnico do Cávado e do Ave (IPCA).