“A verdade é um bem público”

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O jornalismo foi, em tempos, uma opção romântica e plausível que iria determinar a minha formação. Por variadas razões, essa opção ficou de parte. Mas durante algum tempo, permaneceu a certeza que esse fosse um caminho para mudar o mundo através da disseminação da verdade.

Com o tempo e a idade, fui percebendo que as consequências da mudança não se esgotam ao virar da página e que os capítulos seguintes são incertos. E depois há a verdade, a meia verdade, a inverdade, a não verdade ou o que quer que seja quando indevidamente tratado e manipulado.

E depois vem a comunicação social, um sistema dentro do sistema, um quarto poder, diz-se, no contexto do estado de direito, que poderia reproduzir os interesses da comunidade se, para tal, fosse garantida a sua independência e se, sobretudo, num mundo perfeito, as bases, os jornalistas, tivessem força e determinação suficiente para a salvaguarda da máxima: “A verdade é um bem público”.

Na realidade, com excepção das poucas mentes brilhantes que, teimam em produzir trabalhos de excelência, desafiando todos os perigos, a começar pelo perigo de não ter emprego estável, a maioria dos jornalistas, como noutras classes profissionais, vive assoberbada de obrigações determinadas em função do princípio do menor sacrifício que decorre das alternativas excluídas.

Imagino ainda, porque também o senti, o peso da impotência para alguns que, com o tempo, não será necessariamente um peso na consciência.

Bela, nome falso, brasileira, investigadora em Portugal, prestes a regressar ao Rio de Janeiro, a propósito da representação que o Brasil tem de Portugal, referia que leva para casa a descoberta de um país lindo de morrer, mas, na realidade, longe da democracia madura que imaginava. Inteligente, engenheira de formação, a jovem mulher percebeu ao longo da sua estadia e das interacções com pessoas e instituições no contexto do seu trabalho a dificuldade em aceder à informação. Encorajada pela audiência atenta, Bela desabafa sobre o estado da comunicação social. Quando esperava um país aberto, informado onde a verdade fosse acessível e ponderada, descobriu informação selectiva, pejada de preconceitos e, como do outro lado do Atlântico, utilizada como arma para vários fins.

A morte da jovem política brasileira, lésbica, negra e inconformada aconteceu na sequência de um ataque violento a que se seguiu a comoção popular. A visibilidade da violência do acontecimento não deverá evitar o ruído informativo, nomeadamente tendente a relativizar o caso no quadro de um país, segundo a informação que por aí circula, onde a violência nas ruas se tornou tão intensa que foi tomada por conta ou responsabilidade das forças armadas. O acontecimento ainda não se tinha dado quando Bela desabafou, mas vem a propósito que não só com balas se mata. Há formas bem mais cirúrgicas de assassínio, em especial por encomenda à comunicação social. Não deixam espaço para os levantamentos populares, pelo menos no imediato, e servem interesses de gente na sombra que se move em espaços sempre supostamente secretos, lugares na moda e que parecem ser do maior agrado por cá.

Ajustiça é um desses espaços. Há outras antecâmaras, mais ou menos secretas do poder, e a partir daí, imagina-se saírem as diretrizes de quaisquer mandatários. A encomenda de hoje é esta: trate-se de publicar. Esta outra já não dá: é que pode haver retaliações, fica para mais tarde. Há futebol, ocupe-se o jornal televisivo com os resultados: aquela notícia só de relance. O que se passa no país vizinho, a manifestação de mulheres, é pá, não interessa! O Sr. Presidente comeu uma nata, nadou no mar frio, deu um beijo na velhinha e, no dia seguinte, já escolheu comer uma empada. Um jornalismo confortável, ao agrado de uma audiência desinformada, sem dúvidas nem questões, de encontro ao povo que não se levanta ou só se levanta para pedir os 10% que lhe foi tirado de um salário que nunca tirou o pão da boca. Ficam de fora as grandes questões que fazem evoluir a sociedade.

Uma comunicação social independente e de qualidade que transponha na sua acção os valores da democracia, da justiça e dos direitos da humanidade seria uma pedra basilar para a sustentação de uma sociedade melhor. Enquanto isso não acontecer, este canto estará refém de velhos preconceitos e uns tantos interesses vis e obscuros.

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.

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