Eleições

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O grande tema da semana em Guimarães são as eleições para os órgãos sociais do Vitória que se realizam no próximo sábado e que escolherão os dirigentes que vão governar o clube no próximo triénio.

As eleições no clube, desde os anos oitenta do século passado, têm-se quase sempre revelado (a excepção é quando ao acto eleitoral se apresenta apenas uma lista) momentos de exacerbado vitorianismo com os associados a dividirem-se entre as candidaturas e a pugnarem pelo triunfo daqueles que entendem como mais capazes de levarem o Vitória a “paraísos” onde, aliás, nunca chegou.

Convirá aqui recordar que até essa primeira eleição com duas listas, no início dos anos 80, a eleição dos órgãos sociais do clube era quase uma nomeação feita pelas elites vimaranenses que iam escolhendo os dirigentes vitorianos entre os industriais e comerciantes mais reputados do concelho sem azo a polémicas e dando ao clube órgãos sociais de inquestionável valia.

Essa prática, que vinha de 1922, ainda aguentou meia dúzia de anos após o 25 de Abril mas depois, por força da evolução da sociedade portuguesa e da assumpção de valores fundamentais como a democracia, acabou por dar lugar à bem mais democrática escolha dos dirigentes .

Mais democrática mas nem sempre mais qualitativa!

As primeiras eleições com disputa entre listas opuseram dois primos, António e Armindo Pimenta Machado, e resultaram mais de uma cisão na primeira direcção de António Pimenta Machado do que de qualquer diferença programática ou de objectivos a alcançar pelo clube.

Foram uma novidade.

Que dividiu os associados entre uma e outra, permitiu assistir à primeira (e muito mal sucedida) tentativa do poder político se tentar imiscuir no Vitória e tiveram como desfecho um claro triunfo do já presidente António Pimenta Machado, que a partir daí embalaria para duas décadas de presidência que o consagrariam, na minha modesta opinião, como o melhor presidente de sempre.

E durante essas duas décadas houve várias eleições acesamente disputadas (Eduardo Fernandes, José Arantes, etc.) em que o “cimento” que unia as listas de oposição era mais o ódio a Pimenta Machado do que qualquer rumo diferente para o clube.

Nunca o venceram.

E quando em 2004, desgastado por demasiados anos de presidência e por problemas que alguns “grandes vitorianos” arranjaram ao Vitória para tentarem abater o presidente do clube por vias judiciais já que pelas eleitorais nada feito, Pimenta Machado decidiu abandonar a presidência do Vitória e o clube viu-se numa nova era da sua já longa vida.

Sem as elites do passado e sem o presidente que fizera a transição dos tempos de nomeação para os tempos de eleição os adeptos vitorianos deixaram-se “encantar” por uma campanha ardilosa e longamente elaborada para apresentar um associado sem qualquer ligação ao clube que não fosse pagar as cotas como o verdadeiro salvador da Pátria vitoriana.

E elegeram Vítor Magalhães.

Um trágico equivoco que nos custou bem caro.

E que uma vez resolvido, o equívoco, deu origem a outro equívoco chamado Emílio Macedo da Silva que conduziu o clube a uma crise financeira sem paralelo e que obrigou a que após ele fosse necessário serem tomadas medidas de excepção.

Manda, contudo, a justiça que se diga que Emílio Macedo prestou ao Vitória um relevante serviço quando assumindo a presidência com a equipa em décimo primeiro lugar da II Liga, soube tomar todas as medidas necessárias para que a subida fosse possível e o inferno do segundo escalão durasse apenas um ano.

Ainda hoje creio que se não tem sido essa subida imediata o Vitória poderia ter ido parar sabe Deus onde.

E aqui importa fazer uma chamada de atenção.

Em 2010, quando já se percebia que o caminho trilhado pelos órgãos sociais de Emílio Macedo ia acabar mal, apareceu uma candidatura alternativa liderada por Pinto Brasil e que pela primeira vez propunha rupturas programáticas e novos caminhos para o clube, fugindo às tradicionais promessas de contratar jogadores e fazer melhores equipas, que eram normalmente a principal medida proposta pelas candidaturas anteriores.

Propunha a criação da “Fundação Vitória”, a construção de raiz de um centro de treinos para o futebol profissional longe da cidade (chegaram a ser vistos terrenos na zona de Ronfe), a constituição de uma equipa B,  a aposta forte em duas modalidades (basquetebol e voleibol) para as pôr a disputar títulos nacionais, parceria com um grande clube estrangeiro, etc.

Ganhou?

Não.

Teve 30% dos votos porque os associados vitorianos preferiram apostar em quem já conheciam, fechando os olhos a todos os sinais de alerta já existentes, e reconduziram Emílio Macedo rumo ao… precipício!

Até que chegou em 2012.

Com Pinto Brasil a assumir nova candidatura e tendo como grande proposta a rejeição de constituir uma SAD enquanto Júlio Mendes se candidatava retomando algumas das propostas de 2010 da candidatura de Pinto Brasil mas tendo como grande diferença a proposta de constituição de uma SAD para gerir o futebol profissional.

A História de lá para cá, com tudo que ela tem de bom e de mau, é bem conhecida de todos e está presente no espírito de todos os associados vitorianos que no próximo sábado escolherão os órgãos sociais para o próximo triénio.

Democraticamente e sem qualquer drama.

Escolhendo entre Júlio Mendes, que recandidata a sua equipa, apresenta o seu programa  e tem em apreciação os últimos três anos de mandato (os primeiros três já foram avaliados em 2015 como é sabido) e Júlio Vieira de Castro, que se candidata acompanhado por um grupo de pessoas “virgens” em termos de presença nos órgãos sociais do clube e com o seu programa eleitoral.

São eleições normais, num clube que se rege por estatutos democráticos e que felizmente tem uma riqueza associativa que permite oferecer aos associados uma escolha entre duas candidaturas e não o andar em busca de quem queira ficar a dirigir o clube como acontece em tantos outros.

No sábado, ao fim do dia, Júlio Mendes será reeleito ou Júlio Vieira de Castro será eleito.

Democraticamente e sem qualquer drama repito.

Mas depois o essencial é que todos os vitorianos se unam em torno da direcção eleita, esqueçam as pugnas eleitorais, e contribuam para que possamos ter uma Vitória cada vez maior e cada vez melhor.

P.S . Optei por escrever este texto sem entrar em apreciações críticas/elogiosas aos programas eleitorais, aos candidatos, às acções de campanha de cada uma das listas ou até aos debate entre os dois “Júlios”.

Tal como não aconselho o voto em nenhuma das candidaturas.

Os associados têm, de certeza absoluta, a maturidade e o discernimento necessários para na cabine de voto optarem por quem consideram melhor para o Vitória.

Luís Cirilo Carvalho, 58 anos, é deputado municipal eleito pelas listas do PSD. Já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.

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