A ciência contra a crença (de que tudo sabemos)

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O “Prós e Contras” da RTP dedicou a sua emissão desta semana ao tema do Sarampo e da vacinação. Como convidado, ainda que do lado do público, surgiu um céptico das vacinas e da medicina preventiva. Era técnico de biomagnetismo.

Durante o debate o convidado em causa resumiu grande parte do seu argumentário a estudos – um deles entretanto desacreditado -, a crenças e a conhecimento empírico adquirido por meios próprios. Do outro lado, médicos e outros profissionais de saúde argumentavam com ciência e conhecimento comprovado com décadas de estudo, preocupados com uma questão que é, essencialmente, de saúde pública.

Ao sentir que o convidado estava sozinho nesta luta, a apresentadora pediu que o deixassem falar sem interrupções durante mais tempo que a maioria, pela coragem de ter uma opinião diferente, e pela defesa da democracia. Nada mais errado, Fátima Campos Ferreira.

A defesa da democracia, por via da prestação do serviço público a que a RTP está obrigada, faz-se pela informação fidedigna e pelo debate assente em factos, conhecimento ou opiniões naquilo que for do domínio da opinião. Quando se argumenta ciência contra crença, dificilmente estamos no domínio da mera opinião. Perpetuar a predominância da crença sobre a ciência não é coragem, é ignorância.

Este debate remeteu-me para outros factos recentes e para discussões tidas em torno da assunção de profissionalismo por gente não qualificada. Pedro Passos Coelho como professor catedrático convidado, engenheiros civis a assinarem projetos de arquitetura, médicos a vacinarem ou curiosos como jornalistas.

As profissões têm regras. E a maioria delas não foram criadas por puro corporativismo das classes. Foram resultado da necessidade de balizar aquilo que é admissível e aquilo que transmite garantias sobre o correto exercício da função.

Se é verdade que, em alguns casos, a experiência nos mais diversos domínios da ação são suficientes para acrescentar valor à função a desempenhar, como o de um ex-Primeiro Ministro a dar aulas de Administração Pública, noutros são um claro atropelo ao bom exercício da profissão.

Há casos que, pela sua especificidade e criticidade, devem merecer regras apertadas de acesso, como é caso dos médicos, professores ou outros. Os restantes deverão ser balizados, essencialmente, pela qualidade da experiência adquirida e por um controlo mais rigoroso sobre o exercício de funções.

Dirão que não faltam licenciados incompetentes e não formados extremamente profissionais e dedicados. Mas há coisas que precisam mesmo de aprendizagem formal para poder contar como conhecimento. É que uma coisa é o direito à opinião. A outra é a validade dessa opinião para contar como verdade ou facto.

E cada vez vejo mais “técnicos de biomagnetismo” a quererem ser “médicos”.

Paulo Lopes Silva, 30 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Líder parlamentar da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães, de que é membro desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.