As medalhas

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24 de Junho é feriado municipal. Festeja-se a Batalha de S. Mamede, assinalando-se o orgulho patriótico de Guimarães ser o berço da nacionalidade.

Entre inaugurações de obras avulsas em diferentes freguesias e cerimónias religiosas, tem também lugar uma sessão solene, com a aposição de medalhas honoríficas a personalidades vimaranenses.

O feriado municipal de Guimarães foi instituído em 1974, altura também da instauração da democracia em Portugal. Quatro décadas depois, ficámos a saber ontem, na sessão da Assembleia Municipal, que o executivo camarário PS não entende como é possível que o dia 24 de Junho o dia em que se comemora o “nascimento” de Portugal enquanto Pátria seja apenas feriado municipal e não nacional.

Ora, com tanto fervor e emoção patriótica na defesa desejo, a questão que se coloca é saber o que fez Partido Socialista, em Guimarães e no país, durante mais de 40 anos para que se concretizasse este sonho tão antigo para todos os que se orgulham de dizer que “Aqui Nasceu Portugal”.

Adiante, que o que me traz a este tema das comemorações do dia 24 de Junho são as já citadas condecorações. No sítio internet da Câmara Municipal de Guimarães podemos encontrar a lista de todos os condecorados desde 1988. Nesta lista de quase 200 nomes, encontramos empresas, associações, instituições de ensino superior, bandas de música, grupos folclóricos, entre outros. Mas o que se destaca e a abissal diferença existente entre o número de homens e o das mulheres.

Fiz esta análise não apenas por curiosidade, mas porque estas questões do lugar da mulher na sociedade, no trabalho, na política merecem casa vez mais reflexão sem tentações nem de simplificação do que é complexo, nem de populismos fáceis.

Uma lista com tantos nomes masculinos trouxe-me à memória uma passagem do “Memorial do Convento” de José Saramago.

“Daqueles homens que conhecemos no outro dia, vão na viagem José Pequeno e Baltasar, conduzindo cada qual a sua junta, e, entre o pessoal peão, só para as forças chamado, vai o Cheleiros, aquele que lá tem a mulher e os filhos, Francisco Marques é o nome dele, e também vai o Manuel Milho, o das ideias que lhe vêm e não sabe donde. Vão outros Josés, e Franciscos, os Manéis, serão menos os Baltasares, e haverá Joões, Álvaros e Antónios e Joaquins, talvez Bartolomeus, mas nenhum o tal, e Pedros, e Vicentes, e Bentos, Bernardos e Caetanos, tudo quanto é nome de homem vai aqui (…)”

Só que este elencar refere-se a outros tempos, e estes nomes masculinos homenageados por Saramago, tinham como função carregar as pedras com que, no Séc. XVII se construiu o Convento de Mafra. Já a lista onde podemos encontrar mais de uma centena de nomes de homens e se contam pelos dedos das mãos os das mulheres serve para identificar os condecorados do 24 de Junho, pelo município de Guimarães.

Das vinte e duas mulheres que foram condecoradas, apenas cinco receberam a medalha de Ouro, todas as outras foram condecoradas com medalhas de prata ou de mérito. Também estes números não são satisfatórios. Tal como não é satisfatório, o número de mulheres condecoradas desde que o senhor presidente Domingos Bragança foi eleito pela primeira vez em que apenas uma mulher mereceu ser condecorada pelos seus executivos.

Os critérios utilizados para a escolha dos condecorados referem-se ao passado, ao mérito e aos contributos que possam ter dado para o desenvolvimento do concelho de Guimarães. E por isso, fico ainda mais confusa quando o senhor presidente se defende com estes critérios para mais uma vez ter escolhido cinco homens apenas para condecorar no dia 24 de Junho de 2018.

Será que não existem mulheres em Guimarães com um passado que mereça ser valorizado, com mérito em diferentes áreas, com um envolvimento na comunidade vimaranense que mereça a condecoração?

A minha resposta é que sim, existiram e existem muitas mulheres vimaranenses que mereciam ser condecoradas com muito mérito.
Mas, infelizmente, um executivo com a primeira mulher vice-presidente e com o mesmo número de vereadores mulheres e homens, continua com uma visão tão passadista.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.