Pobreza e Educação

banner reflexoNum pequeno projeto industrial têxtil, no qual colaborei há pouco tempo, uma trabalhadora, cujas tarefas dependiam da leitura da informação produzida pelo sistema informático, tornou-se, paradoxalmente, determinante na avaliação do próprio sistema de informação e de toda a organização. Invariavelmente, a trabalhadora transmitia o seu descontentamento perante a forma como estava reproduzida a informação: eram os códigos dos produtos, eram as descrições ou a impressão que tornava a leitura difícil. Na verdade, a funcionária, trabalhadora experimentada e dedicada, dificilmente lia um texto uma vez que possuía habilitações literárias ao nível do 1º ciclo do ensino básico. O baixo nível de escolaridade impôs-se, dramaticamente, como uma barreira intransponível, sobretudo para a trabalhadora.

A falta de mobilidade social que afeta os estratos mais pobres é o resultado de escolhas estratégicas e de uma certa tendência educada para a secundarização, ou banalização, do problema da pobreza em geral, do abandono escolar, da falta de escolarização dos adultos, das diferenças escandalosas nos salários, entre outras coisas. Admitamos que uma quantidade certa de pobreza vai dando jeito, quer para a caridade expiadora dos nossos pecados, quer para consolo do próprio pobre, a quem cedemos de bom grado o primeiro lugar no céu. Entretanto, ainda em terra, vamo-nos tratando como melhor nos convém.

Ora, essa conveniência não é a de todos, como se lê no último relatório da OCDE sobre a pobreza nas economias desenvolvidas, sobretudo se tivermos em conta o objetivo democrático e constitucional do equilíbrio social.
Há, efetivamente, um meio com efeitos imediatos na redução da pobreza e na melhoria das condições de vida que é o de dar mais dinheiro às pessoas, seja através dos rendimentos do trabalho ou sob a forma de transferências do Estado. Ignoro, intencionalmente, os bancos da fome que deveriam ser o último reduto do desespero máximo, no mínimo tempo possível. Sabemos que os rendimentos do trabalho se manterão baixos, convenientemente, porque escolhemos continuar a apoiar atividades de trabalho intensivo cujos produtos de baixo valor acrescentado concorrem com economias muito mais baratas. Mesmo com os investimentos em marcas e em novas tecnologias nos setores tradicionais como o têxtil e o calçado, a opção estratégica é uma condenação a longo prazo, com remunerações de baixo valor para um grande número de pessoas. Quanto às transferências do Estado, elas requerem recursos às contribuições em impostos que ninguém gosta de entregar e, por isso, os aumentos serão paliativos anunciados com pompa e circunstância no momento mais oportuno.

O desemprego de longa duração, em grande parte devido à falta de formação dos adultos, e o abandono escolar são os principais fatores de risco de pobreza e de falta de mobilidade social em Portugal, de acordo com o relatório da OCDE. Assim, os principais problemas residem na formação insuficiente e na ineficácia dos sistemas de educação que retêm os alunos ou que ainda permitem o abandono escolar que andará nos 30% na Região do Norte.

A sociedade portuguesa sobrevaloriza a educação tradicional com prosseguimentos de estudo, pela simples razão que desvaloriza o ensino profissional. Atualmente, por opção estratégica, a formação profissional mistura-se nas escolas públicas com outras vias de ensino, muito para absorver os recursos materiais e humano disponíveis, com economias de escala, mas também os benefícios orçamentais dos fundos europeus. Os mesmos professores numa hora preparam os alunos para prosseguirem estudos universitários, na hora seguinte experimentam o currículo mais flexível da turma do profissional que o perfil de saída do aluno exigiria. A oferta de cursos profissionais nem sempre vai ao encontro das preferências dos alunos, possivelmente mal orientados, e dos seus perfis, resultando indisciplina aturada e banalizada, em prejuízo de todos. A inclusão, bem intencionada, dos cursos profissionais, à mistura com os cursos tradicionais, nas escolas públicas prejudica a eficácia do ensino.

Hoje, acredito que a diferenciação do ensino profissional, em espaços próprios, contribuiria para a sua dignificação, com melhores resultados. Ainda acresce a falta de unificação da via profissionalizante que deveria permitir um percurso de leitura clara e melhor orientação.

Porque se sobrevaloriza o ensino tradicional, a educação de adultos ainda é mal acolhida em certos meios que a encaram como facilitadora. E, no entanto, este será o caminho para acelerar a mobilidade social e os ganhos de competitividade.

A progressão social é um valor cultural que possivelmente a sociedade portuguesa ainda não apreendeu completamente. Eduque-se, então, para deixar o outro crescer.

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.