Os refugiados e a União Europeia

O passado da humanidade parece, periodicamente, repetir-se. A ciclos de estabilidade e bonança dos diferentes tipos de agregados populacionais em que as várias civilizações se organizaram, sucederam-se outros de grande turbulência em que os perigos eminentes da sua própria sobrevivência impunham a fuga para outras paragens, depois de dramas locais que não puderam evitar. Algumas civilizações foram dizimadas pelos algozes do seu tempo, para quem a barbárie era o trunfo maior dos poderosos. A barbárie de ontem, vê-se agora, não suavizou nem contribuiu para humanizar os comportamentos dos povos da idade moderna ou contemporânea.

Recordando períodos mais recentes, relembramos as duas grandes guerras pela tragédia que flagelou, particularmente, a Europa. Após a paz alcançada por grandes vultos da política europeia e mundial da respetiva época, a partir da década de cinquenta do século passado, dos escombros de tão tenebrosas guerras, particularmente da segunda, a vitalidade da Europa reergueu-se, num esforço dos países, das mulheres e homens, norteada pela visão e pelo sonho de líderes europeus ousados e carismáticos. Até finais do século passado viveu-se um período de estabilidade, paz e progresso em todo o velho continente. Há uma década a esta parte o ocidente, muito especialmente a União Europeia, resolveu, por questões geoestratégias, desestabilizar o Norte de África e alguns países do sudoeste asiático. Crasso erro político, sem justificação séria, que agora perturba a União que, entretanto fragilizada em matéria de coesão, enfrenta um gravíssimo problema nas suas fronteiras, para o qual não encontra uma estratégia comum. Ao mesmo tempo, crescem movimentos xenófobos que se vão instalando em vários dos seus países, sem que seja já capaz de impor o cumprimento dos tratados europeus em vigor. Sem força, não suspende nem sanciona os incumpridores das políticas comuns, nos termos dos acordos que a todos os países vincula, ou devia vincular.

Os escândalos mais recentes quanto à questão dos refugiados, abandonados à sua sorte nos desertos no Norte de África ou no Mar Mediterrâneo, a sul da Europa, são profundamente ameaçadores para a já frágil coesão europeia e para a relação entre os respetivos países.

O extermínio a que se assiste, sem se conhecer toda a tragédia que se vive, a continuar sem solução, desmantelará a União Europeia. A erupção de partidos populistas e xenófobos que manipulam os cidadãos e que, por essa via, alcançam o poder, lançarão, a curto prazo, o caos na Europa. Há uma turbulência de profundo desrespeito pelos valores do humanismo em vários pontos do globo. Uns quantos governantes de vários países poderosos dão mostras de uma impreparação humanista e, com a sua conduta errática, põem em constante instabilidade o equilíbrio e a paz mundial.

O nosso modelo de sociedade, que procura o equilíbrio entre as várias classes sociais, nas suas perturbações mais recentes, sobretudo económicas e financeiras, reflete, por via da globalização, os piores exemplos que conflituam com os valores que a enforma e que sempre defendeu. Os impressionantes avanços científicos e tecnológicos a que podemos recorrer permitem aparentar uma sociedade evoluída e de bem-estar. Deixam-nos, porém, a sensação das nossas fragilidades quando confrontados com a pobre evolução moral e ética da humanidade e os perigos que nos cercam. A inteligência artificial, os fluxos migratórios em massa, as alterações climáticas e o risco de uma guerra nuclear são, hoje, a espada de Dâmocles pronta a destruir uma sociedade em larga escala. A evolução pode determinar um destino incompatível com uma sociedade de bem-estar para todos, para a qual devíamos caminhar e não para a sua destruição.

Oxalá as previsões menos otimistas não se cumpram. Os perigos de grande dimensão que vários especialistas consideram como eminentes não nos permitem acreditar num futuro risonho no planeta. A tomar como bem fundamentados os seus profundos conhecimentos científicos em várias áreas, o otimismo abandona-nos, sobretudo quando cruzamos a sua visão com o que observamos à nossa volta. Entre nós, a questão candente dos refugiados divide os países da União Europeia, entre o pensamento humanista e a xenofobia, e ameaça a sua própria existência e a paz, valor tão precioso quanto frágil.

Tenhamos a esperança dos pensadores e criativos que se dedicam ao estudo e à descoberta para melhorar a vida na Terra e não para a destruir.

Guimarães, 28 de junho de 2018

António Magalhães