Profissão? – Professor

Em luta por estes dias, longos dias, andam os professores. Aqueles a quem muito cedo entregamos as nossas crianças, para que estejam protegidas, acompanhadas, para que cresçam felizes e para que adquiram o conhecimento necessário para se tornarem cidadãos interventivos e contribuam para a evolução do seu país.

Com a pressão do dia-a-dia, com a precariedade no trabalho, com o desemprego a espreitar, com leis de protecção à natalidade ainda muito frágeis a entrega das crianças é feita cada vez mais cedo. Aos três ou quatro meses é necessário procurar um berçário para deixar o membro mais novo do agregado familiar, pois é cada vez mais difícil com as leis laborais ficar em casa a acompanhar o crescimento dos bebés. É cada vez menos possível o apoio familiar de um passado não tão longínquo.

E assim, mães e pais confiam os seus filhos àqueles que estão qualificados para cuidar, proteger e ensinar. Dos três meses aos 18 anos a sociedade confia e precisa dos professores para que as gerações evoluam de forma adequada para serem os próximos a participar no desenvolvimento do país.

Dos 18 anos em diante muitos são ainda os que prosseguem o seu percurso com aqueles educadores.

São muitos anos de entrega e de confiança. São muitos os professores que passam pela vida de um jovem. São muitas horas de entrega ao apoio aos alunos, muitas horas de entrega à profissão, muitas horas que se fica a dever à família.

Não estou a dizer que não existem outras profissões onde esta entrega e importância para a sociedade não exista. No entanto, hoje escolhi escrever sobre os professores e a luta que nesta fase, já leva vários dias, que tem consequências para os profissionais, alunos e pais.

As escolas não são dos professores. São em primeiro lugar dos estudantes, pois sem eles não há escola e funciona com a comunidade escolar. Essa que por vezes se esquece que também deve contribuir para o bom funcionamento das escolas. A comunidade escolar envolve alunos, professores, funcionários, pais e encarregados de educação. E muitas vezes, mais do que seriam as desejáveis, os pais e encarregados de educação não desempenham o papel interventivo que lhes compete no processo de escolaridade dos alunos. Mais das vezes, porque não podem.

A sociedade não questiona a inacção de governos e dos municípios na melhoria das condições dos estabelecimentos de ensino, não questiona a qualidade das refeições oferecidas nas cantinas escolares e das opções politicas de se pagar o preço mais baixo, que nunca será compatível com a qualidade das mesmas. O Ministério da Educação continua, ano após ano, a atrasar o arranque dos anos lectivos com os concursos caóticos, o corpo de docentes envelhecido e os jovens a verem-se obrigados a desistir de uma carreira que não lhes traz remuneração justa, que não lhes oferece estabilidade e que apenas lhes dá a perspectiva de um futuro de 10 a 15 anos com as malas às costas percorrendo o país e deixando outros projectos e sonhos a definharem.

Os professores estão em luta, uma luta justa, uma luta amparada por anos de cansaço. Os professores estão em luta pelos seus alunos, porque não é possível ser um bom profissional quando os anos já pesam e a profissão em que estão é de desgaste rápido. Pelos alunos que merecem um professor confiante no seu futuro pessoal para transmitir confiança no futuro daqueles que ensina. Os professores estão em luta pelos que estão dia-a-dia nas escolas, pelos que ainda não conseguiram o seu lugar e por todos aqueles que no futuro podem não ter professores que os ensinem.

Os professores estão em luta porque no Orçamento de Estado de 2018 ficou assumido o compromisso de recuperarem o tempo de serviço – nove anos, quatro meses e dois dias que cumpriram estando nas escolas ao lado dos seus alunos. Lutam por uma aposentação adequada que permita o rejuvenescimento da profissão, lutam por horários que respeitem a lei, lutam por estabilidade emocional e profissional, lutam por concursos justos e transparentes.

A luta dos professores deve ser apoiada por toda a sociedade, porque são parte importante da garantia do futuro das crianças e jovens, das diferentes profissões e do futuro de Portugal.

Na última Assembleia Municipal de Guimarães a CDU apresentou uma moção pela contagem de todo o tempo de serviço dos professores, que foi chumbada pela maioria PS que assim assume não querer estar ao lado da luta dos professores.

O problema é dinheiro? O dinheiro que dizem não existir para se cumprir o compromisso assumido vai para todo o lado menos para a valorização de quem trabalha.

Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.