Não somos racistas e o poder de contar histórias

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Contamos a nós próprios as histórias do grandes “Descobrimentos”, para alimentar o ego a um país pequeno que um dia quis ser grande. Dizemos que “demos novos mundos ao mundo” e fomos bons “colonizadores”, como aqueles bons maridos que são bons maridos porque orgulhosamente nunca puseram a mão na mulher – como se esse direito lhes assistisse e eles são especiais porque escolheram não o fazer.

Portugal tem responsabilidades históricas sobre o seu passado e, particularmente, sobre as ex-colónias. É mais do que tempo de mudarmos o nosso discurso e discutirmos o nosso passado à luz do conhecimento de hoje e, com isso, alterarmos o nosso discurso.

Talvez assim tenhamos mais  noção da dimensão do racismo sistémico que existe no nosso país e possamos pensar em soluções educativas para resolvê-lo.

Vem tudo isto a propósito da agressão a uma jovem colombiana no Porto. Maus profissionais há-os em todas as áreas e as forças policiais e empresas de seguranças não serão certamente excepção. A excepção aqui é a obrigação das forças de segurança pública e os habitantes deste país, nacionais ou não. Não podem, portanto, não devem ser condescendentes com os actos de violência excessiva que advém do racismo que se vive neste quadrado à beira-mar plantado.

Isto também é um reflexo de uma política para a juventude que é deficitária na educação para a cidadania e na sensibilização para os Direitos Humanos. Isto não se nota apenas nos níveis de abstenção na altura das eleições ou no analfabetismo político que se nota nas gerações mais novas. E não se confunda aqui político com partidário.

Político aqui remete para o envolvimento dos cidadãos na organização das suas sociedades, que não se esgota, nem pode, na altura do voto. Também aqui as instituições de poder e os partidos têm a sua responsabilidade na sua falta de vontade se abrirem à população e estabelecerem pontes de diálogo mais abrangentes. Na falta disto, cabe à sociedade civil descobrir novas formas de organização para que a democracia devolva o seu poder efectivo ao povo e não o retenha apenas nos seus representantes eleitos.

Luísa Alvão, 33 anos, licenciada em Cinema, pela Universidade da Beira Interior e pós-graduada em Mediação Cultural – Estudos Comparados do Cinema e da Literatura pela Universidade do Minho. Gosta de contar histórias. Trabalha como programadora e produtora do Shortcutz Guimarães. É também fundadora e presidente da Capivara Azul – Associação Cultural.