Notas soltas sobre temas da atualidade

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Durante semanas, a comunicação social massacrou-nos com os desvarios do ex Presidente do Sporting que foram arrastando um clube com estatuto e que não merecia tais desmandos. Sem entrar em pormenores que não domino, o que se me afigurou deprimente foi o facto de um país democrático, minimamente organizado como é o nosso, não disponha de mecanismos legais para, em tempo útil, pôr cobro a tão caricata situação. Oxalá que a normalidade que parece ter sido recuperada permita a quem de direito encontrar soluções que no futuro nos poupem a tão deprimente espetáculo, para bem do desporto e até da imagem do país.

Embalados ainda pelo êxito de Portugal no último campeonato europeu, alimentou-se a ilusão da possibilidade de repetir a façanha, agora no campeonato do mundo. Uma ilusão vã que, todos sabemos, tinha outros propósitos. Na verdade, a seleção enfrentou dificuldades inesperadas logo na fase de grupos, o que fez esmorecer os ânimos dos mais avisados. Nos oitavos de final sucumbiu à capacidade e tática do Uruguai, uma equipa que se sabia, pelo seu desempenho recente, muito poderosa. A maioria dos que exaltaram as virtudes da nossa seleção, ajudando a criar um clima de alguma histeria, são os mesmos que, agora, desmerecem os heróis de ontem. É o habitual julgamento popular.

Madona resolveu residir em Lisboa e as redes sociais e a comunicação social disso deram conta com alarde e recorrentemente. É verdade que a sua permanência em Lisboa significa uma mais-valia, nomeadamente em matéria de promoção e de visibilidade para Portugal, à escala planetária. Todavia, isso não é justificação bastante para um tratamento de exceção, contrário às normas a que todos os demais cidadãos estão sujeitos. Também não se pode alegar descriminação positiva. Quem, como Madona, tem quinze carros para si e para o seu staff, estamos todos certos que terá disponibilidade financeira para pagar as taxas a que o comum dos cidadãos está obrigado. A dar como verdadeiro o que a comunicação social divulgou, a Câmara de Lisboa andou mal. E, face às críticas a que deu azo, perde a Câmara e pode perder-se a mais-valia promocional da residência de Madona no nosso país.

Ainda sobre a problemática da natalidade, que atinge toda a Europa e, particularmente, Portugal. Há poucas semanas escrevi, aqui, um artigo de opinião sobre a matéria, muito a pretexto da proposta do PSD e também das intervenções de António Costa e do Ministro Vieira da Silva. A deputada da AR, Dra. Vânia Dias da Silva, também neste espaço, escreve sobre o assunto, manifestando “surpresa pela distração” que julgou ler no meu escrito, pelo facto de não ter mencionado o pacote de medidas que o seu partido, o CDS, apresentou em 2016, sobre a questão da natalidade. Não foi minha intenção ignorar o CDS e as suas proposta, apenas me debrucei sobre a discussão em curso no momento presente. Mas, é verdade que se só agora o problema passou a preocupação de todos, quando já o CDS em 2016 o tinha considerado e apresentado medidas para o colmatar, dentro dos seus princípios ideológicos. Pela omissão me penalizo perante a Sra. Deputada e os nossos leitores. Aqui fica a correção que devo. A ingente dimensão do problema reclama que todos os partidos políticos o enfrentem e assumam uma proposta comum, compatível com as possibilidades e as necessidades do país. É o nosso futuro coletivo que, assim, o exige.

A União Europeia parece ter chegado a uma encruzilhada que a compromete, na forma e na essência da sua criação e existência, como a conhecemos. Os sinais perturbadores que nos chegam parecem anunciar que falta pouco para a vermos dividida em dois blocos, com forças ideológicas antagónicas de um e do outro lado, de peso similar. A acontecer, será o fim dos princípios e objetivos sonhados e inscritos pelos seus fundadores, nos anos cinquenta do século passado. Se os piores presságios se concretizarem,  pagaremos todos um preço alto para reencontrar, de novo, um caminho comum, que nos devolva a estabilidade social, económica, política, como este que temos vivido, desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O mesmo que se vê agora ameaçado por uns quantos poderosos e gananciosos, populistas e xenófobos, que tiveram a sorte de crescer numa Europa solidária, na abundância e em paz.

Guimarães, 5 de julho de 2018

António Magalhães