Quando o Vitória foi “americano” antes de ser “europeu”

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Depois do regresso à I Divisão, em 1958, o Vitória iniciou um trajeto ascendente no futebol nacional, que culminou na luta pelo título em 1968/69 e na primeira aventura europeia, na época seguinte. Pelo meio, o clube realizou algumas digressões pela Europa, por África e também pela América, tendo participado em dois torneios, nos Estados Unidos e na Venezuela, cujas memórias, ou parte delas, pelo menos, são contadas por três dos intervenientes, no Duas Caras.

Por Tiago Mendes Dias

A 10 de setembro de 1969, o Vitória atingiu um marco na sua história, então já quase cinquentenária, ao estrear-se nas competições europeias, depois do terceiro lugar na época anterior. Os homens da cidade-berço estrearam-se nas competições europeias, com a receção ao Banik de Ostrava, da então Checoslováquia, relativo à primeira mão da primeira eliminatória da Taça das Cidades com Feira, antecessora da Taça UEFA e da Liga Europa. A partida, recorda o blogue Glórias do Passado, dedicado à história do Vitória, “alterou a rotina da cidade” e quer as fábricas, quer os estabelecimentos comerciais deram “tolerância de ponto” para os trabalhadores assistirem, num fim de tarde chuvoso, a uma partida que a equipa portuguesa venceu, graças a um tento de Manuel, aos 10 minutos.

A abertura do horizonte ‘europeu’ premiou um trajeto iniciado com o regresso à I Divisão na época 1957/58. Com uma equipa na qual pontificava, entre jogadores como Virgílio, Daniel e Rola, o brasileiro Ernesto Paraíso, o Vitória aproveitou a presença do emigrante vimaranense António Pimenta Machado (tio do presidente entre 1980 e 2004) em Recife, para recrutar, numa primeira fase, Carlos Alberto, Caiçara e Edmur, e, mais tarde, jogadores como Lua, Rodrigo, José Morais e Djalma. Em 1962, o clube vendeu Augusto Silva e Pedras para o Benfica e recebeu Mendes, Peres e Manuel Pinto, jogadores de proa no futebol vitoriano até ao início dos anos 70.

O Vitória alcançou o quinto lugar em 58/59, imediatamente após a subida, e nos anos 60, instalou-se nos lugares cimeiros do campeonato nacional, conquistando, para além do terceiro lugar, a quarta posição em 60/61, 63/64 e 65/66 e o quinto posto em 69/70. Somente em duas ocasiões, a equipa cotou-se abaixo do sexto lugar – foi nona, em 61/62 e sétima em 64/65 (sétima). Conduzido nessa década por dirigentes como Hélder Rocha, Manuel Cardoso do Vale e Fernando Roriz, o clube de D. Afonso Henriques não disputou nenhuma prova europeia até ao seu fim, mas começou a granjear prestígio no exterior, graças às digressões que começou a fazer no verão.

A primeira realizou-se em julho e agosto de 1959, em Angola, Moçambique e África do Sul, a convite de vimaranenses radicados nos dois primeiros países, então colónias de Portugal, refere o livro Vitória: 75 anos de história, de Raúl Rocha. A equipa treinada então pelo uruguaio Humberto Buchelli venceu todos os jogos, com exceção de um desafio na África do Sul, que terminou empatado. No regresso, a equipa chegou a Guimarães num comboio que “foi vitoriado” desde Lordelo e recebido por um “mar de gente” desde a fábrica do Castanheiro até ao Toural, passando pela avenida D. Afonso Henriques, escreve Raúl Rocha. Cinco anos depois, o Vitória foi novamente convidado a jogar fora de Portugal, com outras formações europeias.

A primeira travessia do Atlântico

Depois de ter concluído a época 1963/64 no quarto posto, com os mesmos 34 pontos do terceiro classificado, o Sporting, o Vitória recebeu um convite para competir num torneio de verão nos Estados Unidos, denominado ‘International Soccer League’. A prova, escreve David Litterer num artigo publicado na base de dados Rec.Sport.Soccer Statistics Foundation, constituiu a “primeira tentativa moderna para criar uma liga de futebol de referência no país”. William Cox, empresário e ex-dono dos Philadelphia Phillies, equipa da liga norte-americana de beisebol (‘Major League Baseball’), criou a prova, após ter sentido que havia interesse pela modalidade junto da população urbana e das comunidades de imigrantes de primeira geração.

Depois do Sporting ter participado na primeira edição e do Belenenses ter marcado presença nos torneios de 1962 e 1963, o Vitória foi a terceira equipa lusa a disputar a competição, dividida em dois grupos de cinco equipas. “O torneio era mostra de prestígio. A organização convidou-nos. Estivemos 15 dias em Nova Iorque e 15 dias em Los Angeles”, recorda Fernando Roriz, à época, diretor do clube e um dos elementos que liderou a comitiva vitoriana aos Estados Unidos, a par de Celso Machado e Alberto Magalhães e Sousa.

Manuel Pinto

Com o direito a estadia paga pela organização e ainda a um “prémio”, pago em “tranches jogo a jogo”, a equipa de Guimarães “não esteve muito mal nem muito bem”, mas nunca fez “má figura”, acrescenta o antigo dirigente. Os vitorianos, orientados pelo argentino José Valle, terminaram o grupo II do torneio na quarta posição, com uma vitória, três empates e duas derrotas em seis jogos, atrás do Zaglebie Sosnowiec, da Polónia, do Schwechater, da Áustria, e do Estrela Vermelha, da então Jugoslávia, e à frente dos gregos do AEK de Atenas. O Duas Caras não conseguiu apurar todos os resultados do torneio, mas sabe que o Vitória conseguiu o único triunfo frente à formação helénica, terceira classificada do seu campeonato, empatou 0-0 ante o campeão jugoslavo e perdeu por 1-0, frente ao então vice-campeão da Polónia. O Zaglebie Sosnowiec, que vai regressar, neste ano, ao principal campeonato do seu país, era então uma equipa apetrechada com avançados internacionais pela seleção polaca, como Jozef Galeczka e Andrzej Jarosik, e venceu mesmo o torneio.

Ainda no início de uma carreira de 13 anos pelo Vitória – realizou 285 jogos entre 1962/63 e 1973/74 e conseguiu quatro internacionalizações pela seleção -, Manuel Pinto diz ter jogado num campo de beisebol, em Nova Iorque, e no Los Angeles Memorial Coliseum, o estádio que acolheu os Jogos Olímpicos de 1932 e 1984 e vai acolher os de 2028 – um dos jogos aí realizados foi com o Schwechater. Hoje com 79 anos, o antigo defesa central, internacional pela seleção das quinas em quatro ocasiões, já não se lembra com certeza dos resultados alcançados, mas recorda a atenção prestada pelos emigrantes portugueses que encontraram no caminho. “Havia mesmo muitos emigrantes nesses países. Fomos convidados por vários emigrantes para a equipa toda a ir almoçar às casas deles”.

Fernando Roriz lembra-se, por seu turno, de ver “muitos portugueses nas bancadas” nos jogos da equipa e de encontrar emigrantes portugueses com bandeiras do Vitória em todos os aeroportos em que o voo entre Nova Iorque e Los Angeles parou. “O Vitória era conhecido, porque havia portugueses em todo o lado. Fomos muito bem recebidos”, descreve.

Da estadia em Nova Iorque, o antigo presidente vitoriano guarda as memórias de dois grupos diferentes de emigrantes lusos. Na cidade, havia um “núcleo de madeirenses, que tinha uma vida impecável, direitinha”, com cada família em posse da sua vivenda e do seu automóvel. A 15 quilómetros de distância, em Newark, cidade ainda hoje reconhecida pela comunidade portuguesa que lá habita, Fernando Roriz diz ter encontrado uma realidade mais difícil.  Embora ganhassem “um balúrdio à hora”, os portugueses que aí conheceram trabalhavam nas estradas “sob um calor muito forte” e, depois de acabarem o trabalho, às 18:00, enfiavam-se numa cervejaria muito grande e fresca que lá havia e “bebiam até à noite”. “Eram pessoas com pouco suporte social”, descreve.

Um filme de Hollywood

Depois de Nova Iorque, seguiu-se Los Angeles. Fernando Roriz lembra-se da comitiva vitoriana ter percorrido cerca de 20 quilómetros por “entre ruas e mais ruas” até a equipa chegar a Hollywood, onde iria ficar hospedada. Em frente ao hotel, recorda, encontrava-se o Teatro Chinês; com traços e ornamentos alusivos ao país mais populoso do mundo, aquele edifício nonagenário já acolheu várias estreias de filmes, como o primeiro da saga Guerra das Estrelas, em 1977, e distingue-se pelas marcas de pés e mãos de gravadas no chão, junto à entrada, de centenas de figuras ligadas, principalmente, ao cinema, como Sophia Loren, Jack Nicholson, Robert de Niro ou Meryl Streep.

Mas foi mesmo o hotel, e não o teatro, o palco de uma cena que Castro, avançado da equipa, não mais se esqueceu. Nascido em Caneiros (Fermentões) e formado no Vitória, o jogador distinguia-se, segundo conta, pela “velocidade e pelo drible” e estreou-se pela equipa principal na época 1962/63, com 19 anos, tendo depois integrado a comitiva que viajou para os Estados Unidos. A meio da estadia na Califórnia, Castro foi detido por dois agentes do FBI. Mesmo em frente à porta do hotel. “Vi um carro a chegar e parar mesmo ao meu lado. Saíram de lá dois matulões e passaram várias vezes por mim no passeio. Passava muita gente e não liguei nenhuma. Depois, a determinada altura, chegaram-se a mim, mostraram o emblema e disseram que eu estava preso. Eu tentei ir para o hotel, mas não me deixaram sequer ir buscar documentos”, recorda.

 

Castro

Castro pouco sabia de inglês, mas o suficiente para argumentar que era jogador de futebol. A equipa técnica e os membros da direção ficaram, depois, a par da situação, mas os agentes recusaram, ao início, libertar o jogador vitoriano. O FBI acreditava que Castro era um pretenso criminoso que procuravam e justificou essa convicção com algumas fotografias em sua posse. “Naquela altura, eu usava umas patilhas, tinha muito cabelo. Eles mostraram-me, de facto, fotografias e quem olhasse para elas de frente e de lado dizia realmente que era eu”, reconhece.

A autoridade norte-americana acabou, depois, por reconhecer que Castro não era a pessoa procurada e por o libertar. Da quinzena passada em Los Angeles, o antigo dianteiro recorda também o contacto com os emigrantes e as festas em suas casas “nos dias de folga a seguir aos jogos”. Toda a comitiva participava nesses encontros, e Fernando Roriz recorda um em particular, com uma família que os recebeu a um domingo, colocou música portuguesa e ofereceu petiscos tradicionais portugueses. A festa, porém, terminou às 23:00 em ponto, uma vez que, no dia seguinte, começavam a trabalhar às 06:00, numa fábrica de frigoríficos. “Eles acabaram a festa. Não tinham qualquer desculpa para faltar. Lá ganhava-se muito, mas era preciso trabalhar a sério”, recorda.

O torneio voltou a realizar-se em 1965, antes de se extinguir devido à “falta de estrelas e às baixas assistências nos estádios”, refere o artigo de David Litterer. O dirigente vitoriano considera que o futebol, então “numa fase embrionária nos Estados Unidos”, não atraía muita gente por ser uma modalidade em que se “anda muitas vezes a meio-campo, sem remates à baliza”. “Já li que os americanos não se inclinavam muito para o futebol, porque gostam de ver golos ou pontos”, diz.

Uma digressão latina, dentro e fora do relvado

O verão de 1966, gravado na memória do futebol português pelo terceiro lugar de Eusébio e companhia no mundial da Inglaterra, brindou o Vitória com mais uma viagem ao outro lado do Atlântico, desta vez rumo à Venezuela. Com um plantel que reunia a espinha dorsal formada três anos antes e ainda jogadores oriundos da formação e do Brasil – José Morais e Djalma impuseram-se na equipa titular -, os vitorianos, comandados pelo francês Jean Luciano, chegaram, de novo, ao quarto lugar da Primeira Divisão, com 33 pontos.

A qualidade patenteada a nível interno valeu à turma da cidade berço um convite para disputar, no final de junho e no início de julho, o Torneio Cidade de Caracas, a competição sucessora da Pequena Taça do Mundo, que reuniu, entre 1952 e 1957, algumas das melhores equipas europeias e sul-americanas de então – Real Madrid, Barcelona, Roma, Corinthians, River Plate e Millonarios, da Colômbia -, e foi precursora da Taça Intercontinental, criada em 1960.

Terceira equipa portuguesa a participar naquele torneio, depois de FC Porto, terceiro em 1963, e de Benfica, vencedor em 1965, o Vitória defrontou, naquele ano, o Valência e a Lazio, equipas que se tinham classificado a meio da tabela em países habituados a vencer a Taça dos Campeões Europeus – AC Milan, em 1963, Inter de Milão, em 1964 e 1965, e Real Madrid, em 1966.

A comitiva vitoriana, liderada desta vez por Adriano Costeira e Pires Monteiro, sentiu o calor do país e dos emigrantes portugueses lá radicados, instantes depois de ter aterrado no aeroporto de Maiquetía. Do trajeto de 22 quilómetros rumo ao coração da capital venezuelana, Manuel Pinto recorda-se, sobretudo, de ver pela janela um emigrante que acompanhava a equipa no seu carro, mas “saía de lá com ele em andamento para gritar pelo Vitória”. “O carro ficava a andar sozinho. Fartámo-nos de rir com isso, mas, ao mesmo tempo, ficámos comovidos pela maneira como aquela pessoa estava a receber-nos”

Vitória e Lazio protagonizaram o jogo inaugural da Copa Simon Bolivar, a denominação daquele ano, em 20 de junho, diante de cerca de 20.000 espectadores no Estado Olímpico de Caracas. Os italianos ocupam as recordações vitorianas por terem, sobretudo, eliminado a formação da cidade-berço na primeira ronda da Taça UEFA, em 1997/98, com vitórias nos dois jogos (4-0 e 2-1), mas o primeiro duelo alguma vez realizado entre os brancos de Guimarães e os “biancocelesti” de Roma teve outro desfecho.

O Vitória alinhou com o mesmo onze nas quatro partidas realizadas em Caracas. Guarda-redes: Arnaldo; Defesas: Gualter, Manuel Pinto, Joaquim Jorge e Daniel Barreto; Médios: Silva, Peres e José Morais; Avançados: Castro, Djalma e Mendes

A equipa de Jean Luciano impôs-se por 3-1, com Mendes a servir-se do seu ‘pé canhão’ para apontar, de livre, o tento inaugural da prova, aos 18 minutos, o capitão, Peres, a bater o guarda-redes Cei pela segunda vez, aos 40, e Castro a selar o resultado na conclusão de um contra-ataque, aos 65, já depois de Renna, aos 53, ter reduzido na conversão de uma grande penalidade. O jogo teve, pelo menos, exposição mediática na imprensa venezuelana, no diário Últimas Noticias, e na italiana, com uma crónica no L’Unitá, diário então ligado ao Partido Comunista Italiano, hoje fora de circulação

A enciclopédia online não oficial da Lazio apresenta também um resumo, que destaca as más condições do terreno de jogo face à chuva que se abatia sobre a capital venezuelana, o domínio vitoriano até ao primeiro golo, e o esforço dos romanos para inverter o resultado até Castro sentenciar a partida. Pelo meio, uma falta sobre a figura da Lazio, o avançado Vito d’Amato, a meio da primeira parte, desencadeou uma confusão entre os jogadores das duas equipas, que levaram à interrupção do jogo. “Os defesas portugueses recorreram a manobras agressivas para travarem o jovem avançado, e, aos 25 minutos, à enésima falta, gerou-se uma briga entre as duas equipas. Três minutos depois, o trio de arbitragem acalmou os ânimos”, lê-se na enciclopédia “biancocelesti”.

Vitória e Lazio reencontraram-se na semana seguinte, no dia 29, para um embate em que a bola já correu sobre um relvado em boas condições. O empate a um golo foi o resultado final; Djalma adiantou os vitorianos no arranque da segunda parte (46 minutos), com um “remate cruzado e potente”, sem hipótese de defesa para Gori, e Sassaroli estabeleceu o resultado final, aos 67, depois de Joaquim Jorge, central vitoriano, ter falhado um corte aparentemente fácil, descreve a crónica do Últimas Noticias. O diário venezuelano reportou ainda que a Lazio soube travar os ataques vitorianos na primeira parte, mas apenas na segunda parte, já em desvantagem, conseguiu fazer “incursões” à área vitoriana. O Corriere dello Sport, diário desportivo que ainda hoje circula em Itália, considerou, por seu turno, o resultado justo, lamentando, no entanto, a “má sorte” e os “erros” dos avançados na hora de atirar à baliza, que impediram os romanos de chegarem ao intervalo na frente.

Por essa altura, já o Valência estava embalado para ganhar o torneio, após ter derrotado a Lazio, no dia 22, por 1-0, e o Vitória, no dia 27, por 3-1.  Nesse primeiro duelo ibérico, os homens de Guimarães ainda chegaram ao intervalo na frente, graças a um tento de Castro, aos 44 minutos, mas, na segunda metade, não tiveram argumentos para segurar a vantagem face aos disparos certeiros de Vicente Guillot, aos 51 Ansola, aos 70, e de Manolo, aos 73.

Os valencianos asseguraram a conquista do torneio com mais uma vitória por 1-0 sobre a Lazio, em 01 de julho, e dois dias depois fizeram o pleno, ao imporem-se ao Vitória por 3-0. No jogo de encerramento, as duas figuras da equipa espanhola, o médio Claramunt e o defesa Juan Cruz Sol – viriam a somar mais de 20 internacionalizações, cada um, por ‘La Roja’ – foram titulares e marcaram, respetivamente, o primeiro golo, aos 19 minutos, e o segundo, aos 47. Burgos fechou a contagem, aos 72. O Últimas Noticias escreveu então que o Valência comprovou a sua superioridade com um “jogo alegre de equipa, consolidado por passes curtos e precisos e pela sua capacidade de penetração”.

A memória das duas semanas passadas na Venezuela estende-se, no entanto, para além das quatro linhas. Castro recorda, sobretudo, o “calor húmido a toda a hora” e a presença constante do ‘whisky’ na mesa de qualquer família de emigrantes que a comitiva visitava. “Vários emigrantes queriam que fôssemos à casa deles. Chegávamos lá, e a primeira coisa que eles punham era uma garrafa, juntamente com uns aperitivos. Transpirava-se muito. As pessoas estavam constantemente a desidratar e bebiam muito”, explica.

Um dos emigrantes que mais acompanhou o Vitória nessa digressão, lembra, por seu turno, Manuel Pinto, era, à época, um dos principais empreiteiros de obras em Caracas. Com ele, a comitiva visitou o maior centro comercial da cidade, recebendo objetos como “camisas e rádios”, jantou em restaurantes e entrou, inclusive, numa discoteca da Venezuela, onde havia um “grande espetáculo”, com “aquelas bailarinas no palco a dançar aquelas músicas mexidas da América Latina”. Nessa ocasião, coube a José Morais mostrar que tinha talento para além do futebol. “Lembro-me que ele saltou para cima do palco, começou a dançar com uma delas, e, juntos, deram um festival que deixou todos a bater palmas. Depois, toda a gente estava a oferecer garrafas de ‘whisky’ à malta”, conta. O antigo defesa retém ainda a memória da receção que a cidade ofereceu à equipa, quando chegou da América do Sul. “Estava muita gente à espera do autocarro, principalmente no Toural”.

O troféu conquistado sem qualquer golo

Além das viagens à América, o Vitória passeou também por relvados de outros países europeus nos anos 60. A vizinha Espanha, a Galiza, nomeadamente, era um destino frequente nos meses de verão. Em 1965, a equipa percorreu todo a costa Sul do país vizinho até à Catalunha, recorda Castro, e viajou depois para as Canárias, para defrontar o Las Palmas. O avançado lembra-se de, no final desse jogo, a seu ver, um dos melhores que fez nas oito épocas que representou o Vitória, ter sido pessoalmente elogiado pelo jornalista do desportivo A Bola que acompanhava a digressão. Manuel Pinto lembra-se também desse encontro, que crê ter terminado 3-2, a favor do Vitória.

Um ano antes, a equipa viajou da cidade-berço até à Bélgica, para defrontar o Racing White Molenbeek, clube para onde Lua fora transferido, e venceu por 2-1. Um dos compromissos internacionais mais atribulados dessa década aconteceu, porém, já seu término, quando, em 1969, o Vitória disputou o Troféu de Clermont-Ferrand com o Olympique de Lyon, clube que defrontou na fase de grupos da Liga Europa em 2013/14, tendo empatado a um golo em França e perdido por 2-1 no D. Afonso Henriques.

Depois de, pela primeira vez, ter atingido o pódio no campeonato nacional, o Vitória recebeu o convite do Banco Português do Atlântico e do Banco Franco-Português para jogar em França. A equipa rumou a Paris e voou depois para Clermont. Pouco antes da chegada à cidade do Maciço Central, a tripulação apanhou um susto com um movimento inesperado do avião. Castro foi um dos elementos que viajou a França e, mesmo não conseguido descrever exatamente a manobra do avião, lembra-se do grito da assistente de bordo, das louças partidas e espalhadas pelo corredor fora e do representante do Banco Português do Atlântico estatelado no fundo do corredor. “O representante do Banco Português do Atlântico vinha dos sanitários, na parte da frente. Não sei o que o avião fez, mas não passou nenhum poço de ar. Depois do avião ter ficado direito, chamou-me a atenção o facto do homem ter chegado ao fundo do corredor sem me aperceber por onde passou”, recorda.

Adeptos com jogadores vitorianos, em Clermont-Ferrand. Créditos: Glórias do passado

Superado o percalço, a equipa subiu ao relvado do Estádio Marcel Michelin e foi brindada com muitos emigrantes portugueses na bancada. “Clermont-Ferrand tinha, na altura, um núcleo muito grande de emigrantes portugueses”, lembra Fernando Roriz, o presidente do Vitória, na altura. O duelo com o Lyon, nono classificado no campeonato gaulês de 68/69, estava empatado a zero, quando terminou abruptamente antes do fim do tempo regulamentar, na sequência, precisamente, de uma invasão de campo dos espetadores lusos. “O jogo até curiosamente não acabou, porque houve lá um lance qualquer meio duvidoso, e os emigrantes invadiram o campo em desacordo com o árbitro”, acrescenta o dirigente. Sem um vencedor definido em campo, o clube francês entregou o troféu aos vimaranenses. “Pareciam meios assustados com a invasão de campo”, recorda.

A presença em Clermont-Ferrand ocorreu numa fase de consolidação do trajeto iniciado uma década antes. Em todos os encontros que disputou fora de Portugal, Castro, o jogador que marcou o primeiro golo no Estádio Municipal de Guimarães (hoje D. Afonso Henriques) – vitória sobre o Belenenses, por 2-1, a 03 de janeiro de 1965 -, diz nunca ter visto “nenhuma equipa a olhar de cima” para o Vitória. “De todas as equipas com que jogámos, o Valência foi a única que conseguiu ter mais domínio. Os outros jogos foram sempre muito taco a taco”, reitera. Já Fernando Roriz diz que, em todos os jogos internacionais então disputados, o “clube foi sempre respeitado”.