Contradições dos tempos

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Somos seres humanos, com necessidades, direitos e deveres. Somos cidadãos que contribuem para a comunidade onde estamos inseridos, para o país onde vivemos e até um pouco para o mundo ao qual pertencemos.

Após o 25 de Abril de 1974 soubemos acolher todos, os que não tinham voz, os que sofreram em silêncio e podiam finalmente gritar as suas necessidades e os seus direitos. O direito à habitação, ao emprego, à educação, à saúde independentemente da classe social.

Desde que se conquistou a liberdade e a democracia, optou-se pela construção de uma sociedade mais justa e equilibrada para todos. No entanto, passados 40 anos da construção da tolerância, da igualdade, do respeito pelo outro verificamos que em Portugal a esperança não floriu tanto quanto os primeiros alvores da revolução indicavam.

Parece que vivemos tempos divididos entre a corrida para apanhar todos aqueles que já encontraram o lugar da aceitação de todos os que são diferentes, e, na sua diferença, tão normais como todos os outros, e as políticas que promovem o ódio, a discriminação e a intolerância.

Percebemos que não fomos tão longe quanto gostaríamos, no momento em que vemos na televisão uma jovem mulher a ser agredida por um segurança homem com o dobro do tamanho dela e à sua volta várias pessoas apenas optaram por pegar no telemóvel e filmar o acto de violência a que estavam a assistir, a soltar umas lágrimas e até a gritar uns insultos.

Ou de cada vez que homens decidem usar a sua liberdade de expressão para escrever nas redes sociais, e assim dar às suas palavras uma eternidade que não merecem, que as mulheres são egoístas porque o divino só a elas lhe deu o direito da maternidade e por isso, quem sabe não serão elas, as mulheres, as responsáveis pela baixa taxa de natalidade no nosso país à beira-mar plantado.

Vemos isso quando os insultos que ouvimos durante um jogo de futebol vão variando entre as afirmações: “este gajo não joga nada!”, quando é um jogador branco e “este preto não joga nada!”, numa afirmação que poderia ser considerada normal no calor da emoção mas que está carregada de racismo, que por acaso é punível por lei, e que é difundida, desde logo, a partir dos grandes órgãos de comunicação social.

E quando se insultam as pessoas por pertencerem ao partido A ou B, quando se afirma a pés juntos que são todos iguais, todos roubam, todos traem, todos enganam, todos são corruptos. Quando não se conhece o trabalho, quando se optou por não ler programas eleitorais, por não ouvirem o que defendem, por desconhecer os valores e as opções.

Sentimos isso quando nos sentimos compelidos a não nos juntarmos à manifestação LGBT porque temos medo do que vão pensar aqueles que nos virem a gritar pelos direitos que constam na Constituição da República que nunca refere a opção sexual de cada um para usufruir dos mesmos.

E quando vemos serem questionadas as greves, e o direito a elas, pelos comentadores ao serviço de interesses inconfessáveis, ou as tentativas condicionar as manifestações, por exemplo, por leis laborais mais justas e que permitam a criação de mais emprego, que acabem com a exploração dos trabalhadores, que melhorem a vida das famílias, que permitam o aumento do salário mínimo para permitir que todos possamos viver com mais dignidade.

E também quando um país de emigrantes, com património na pátria à custa de muito trabalho, suor e lágrimas no país que os acolheu, recusa acolher os imigrantes que fogem do seu país à procura da dignidade que enquanto seres humanos merecem, lhes recusa espaço e lhes atribui os mais diversos problemas sociais.

É necessário olhar em frente, perceber onde está o erro e porque não se avança mais. A intolerância em relação à diferença dos outros faz parte de uma sociedade egoísta e egocêntrica que certos interesses teimam em alimentar. A intolerância nasce no seio da educação familiar, na falta de conteúdos livres na escola, na incapacidade para conhecer outras pessoas, outras culturas, outras formas de estar, mas particularmente nas políticas e opções que procuram culpar o outro, o estrangeiro, o que nos é diferente, pelos problemas e dificuldades com que se defrontam os povos . Só no seio da diversidade conseguiremos atingir a liberdade e percebermos que somos apenas todos seres humanos com necessidades, direitos e deveres.

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Mariana Silva, 34 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.