O resgate dos jovens Tailandeses

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A primeira informação do “desaparecimento” dos jovens numa gruta, na Tailândia, não mereceu o tratamento mediático que as sequentes notícias mereceram. À medida que os dias iam passando sem se ter notícia do paradeiro do grupo, como que eclodiu uma explosão noticiosa internacional que provocou em quase todos os países um inusitado interesse relativo à sorte dos jovens, ainda em paradeiro desconhecido. Então, mobilizaram-se especialistas de várias latitudes que disponibilizaram os seus conhecimentos para, em colaboração com as forças locais, de forma altruísta ajudar a encontrar e resgatar a jovem equipa de futebol tailandesa.

De acordo com as notícias que nos foram chegando, tudo terá sido feito com grande profissionalismo, quer quanto ao trabalho que levou à descoberta dos jovens, que dez dias depois do seu desaparecimento foram encontrados confinados num espaço da gruta onde se haviam refugiado, quer quanto às suas condições de saúde. Durante todo esse tempo, só a disciplina no seio do grupo terá permitido suprir física e psicologicamente a falta de bens alimentares. Por outro, só a presença e força de espírito e a confiança, porventura incutidas pelo seu treinador, terá permitido suportar estoicamente tão longo período de isolamento e sem alimentação.
Após a sua descoberta, como que se refinaram os cuidados e a preparação para o salvamento do grupo, entrando em ação um conjunto variado de especialistas com vista ao êxito da operação de salvamento. Ao mesmo tempo, de várias partes do globo acudiam correspondentes dos mais diferentes órgãos de comunicação social. A ampla divulgação e o acompanhamento noticioso, ao minuto, tornou a operação de salvamento uma “epopeia” seguida nos quatro cantos do mundo. Preparada com minúcia, a operação, sei à hora que escrevo, foi um êxito. Complementando o trabalho de excelência que é necessário em situações similares, os jovens foram conduzidos para unidades hospitalares para receberem o tratamento físico e psicológico mais adequado, que garanta o retorno à sua vida normal, no seio das respetivas famílias.
Agora, perante um desfecho tão auspicioso, este generoso e solidário “cordão humano”, à escala planetária, merece um reconhecimento à dimensão da tragédia humana que se temia e, graças ao esforço heroico de tantos, felizmente não aconteceu.
Todavia, a extraordinária ação de resgate, que nos despertou toda a admiração, obriga a refletir e a tentar compreender este ato tão humanista e de superação, que mobilizou os mass media e, através destes, arrebatou a solidariedade internacional, se comparado com tragédias humanas de dimensões inauditas, que acontecem por este mundo fora. De facto, como explicar a emoção sentida pelo desaparecimento e resgate de treze jovens enquanto se silencia o desaparecimento de centenas e centenas de jovens e adultos nas águas do Mediterrâneo, ou aqueles que morrem nos desertos do Norte de África?
A comunicação social, a nível internacional, reconhece a sua incapacidade para agir, não denunciando tais tragédias? Terá alguma lógica invocar a guerra para desculpar tão ensurdecedor silêncio? O que justifica a incapacidade da nossa solidariedade perante a força de conflitos fratricidas? Sinceramente, não sei. O que sei é que a alegria que sentimos com o bem-sucedido resgaste dos jovens tailandeses não me suaviza a mágoa de saber da existência de tantas e tantas tragédias humanas que sacrificam crianças indefesas, jovens e adultos, em múltiplas partes do globo. Estes infelizes tiveram a desdita de nascer em territórios conturbados, num período tão peculiar e, sobretudo, tão perturbador, que nem sequer merecem ser notícia e, como consequência, a nossa solidariedade.
Oxalá as mais de mil crianças mortas na Síria tivessem sido poupadas e, não o sendo, tivessem tido a mesma atenção mediática e, por essa via, a nossa solidariedade e o nosso repúdio!
Oxalá os milhares de crianças mortas no Iémen tivessem tido direito à vida e, não o tendo, a sua morte pudesse também ser alvo de notícia, da nossa solidariedade e de veemente condenação!
Oxalá as cerca de quatrocentas crianças presas em Israel pudessem brincar livremente na rua e, não podendo, a sua condição merecesse denúncia e ondas de solidariedade!
Oxalá que a vida de cerca de 14 mil crianças que, diariamente, morrem em África, fosse poupada e, não sendo, a comunidade internacional se unisse para as salvar!
Oxalá!
Guimarães, 11 de julho de 2018
António Magalhães