Eu sou aquela que

Eu sou aquela que, no ciclismo e na vida, segue “somando minutos fantásticos” porque são “minutos que têm sentido no meu projeto de vida – na busca constante de me superar em que, “apesar de não gostar de perder nem a feijões”, ganho sempre que aprendo, que me torno melhor para o próximo, sempre que conheço e me reinvento!”

Mas tenho saudades de levantar os braços! Falta-me erguer as mãos, apontar ao céu, abrir um sorriso no peito!

Todos os dias – todos os dias sem exceção – vou sair de casa pelo despertar da manhã e vou descer à garagem para pegar na bike. Todas as manhãs – todas as manhãs sem exceção – vou sair para a rua, cumprindo à risca o plano de treino. Todas as tardes – todas as tardes sem exceção – vou regressar com o dever cumprido. E depois? E depois das horas a solo? E depois dos kms percorridos? E depois das dores de pernas? Depois, o dó de não erguer os braços vitoriosos, o pesar de não estar em primeiro lugar.
As horas dos dias dos treinos num ápice se transformam em semanas, em meses e, antes que se desse conta, já a época vai a meio! Conto os feitos, os top10, os top5, os pódios e sorrio para a dourada medalha de bronze e falta a nobreza ímpar e singular.

Por muito que o arroz seja importante, todos os dias engulha até aos mais famintos! Para nós, atletas, há conquistas diárias, pequenas vitórias que muitas vezes estão num passo para a balança, à escala de uma prega, a um segundo daquele último registo mas o grande objetivo é sempre mais além: está sempre depois do último êxito (que, agora, é já passado). É como uma contínua maratona, uma passadeira rolante que nunca para e que segue para depois da linha do horizonte. É um projeto de vida que às vezes é tão egoísta – por muito que nele caiba “um grupo bem alargado e diversificado de pessoas que, do seu modo próprio, com a sua identidade, nos bastidores (como eu digo comummente) fazem também parte desta #buscapelafelicidadenabike”.

Entre o elevar e o derrotado baixar de braços está apenas a vontade. Entre o elevar e o derrotado baixar de braços está a vontade e a atitude. Entre o elevar e o derrotado baixar de braços está a vontade, a atitude, um pensamento, um crer, um querer, uma força que é motora e suicida – como disse o poeta: era importante poder morrer de quando em vez, sobretudo naqueles dias de treino e de prova em que sobreviver cansa tanto. Acredito que, como os artistas, também nós atletas morremos mais do que uma vez porque é impossível seguir, dia após dia – todos os dias sem exceção – na busca de algo que só existe em nós, para nós e por nós: pessoal e intransmissível, do processo ao resultado.

Ilda Pereira (http://ildapereira.com), 36 anos, licenciada em Ensino de Português e Inglês, na Universidade do Minho, e em Artes, na Escola Superior Artística de Guimarães. Foi oficial da Força Aérea e é corredora internacional de ciclismo desde 2010.