Os sons da vitória

Há momentos que não se esquecem, há palavras que mesmo que enunciadas mil vezes conseguem soar de forma diferente de cada vez que as ouvimos e sons que nos fazem ser transportados para determinados momentos na nossa vida.

26 de maio de 2013. Há quem se esqueça do dia de aniversário de casamento, da data do nascimento dos seus parceiros, a maioria das pessoas não sabe a data em que viu o primeiro jogo do Vitória e muitos de nós nem sequer sabem a data do dia de hoje, mas aposto o meu cachecol da sorte do Vitória (uma daquelas relíquias sagradas que mais ninguém pode tocar) que não há um único vitoriano que não saiba o que aconteceu a 26 de maio de 2013 (para futura referência, note-se que escrevi 26 de maio de 2019 várias vezes e tive de corrigir – que seja um bom prenúncio).

Esta semana dei por mim a pensar no som daqueles golos. Lembro-me da cor do céu, do quão em câmara lenta tudo aquilo aconteceu, dos cheiros que inundavam o Jamor, mas o som que os golos tiveram naquele dia foi particularmente emocionante. A forma como aquela bola tocou nas redes do Benfica, o barulho que fez foi notavelmente diferente do som daqueles que o precederam e de todos os outros que o sucederam. O estalo da multidão adicionou um silêncio momentâneo que durou milésimos de segundo, mas que conseguiu ficar na minha mente, seguido de suspiros de espanto para marcar o espetacular momento, além do fator wow vertiginoso para sinalizar uma onda em rápida sucessão, misturado com o júbilo de meta padrão. O sentimento de ainda não ter parado de celebrar para celebrar novamente. E a repetição de todas aquelas sensações… (continua a ser fascinante como basta pensar naquela data e a nossa mente nos consegue quase que teletransportar para aquele momento).

Para aqueles de nós que de alguma forma conseguiram não estar no Jamor naquele dia (ou para aqueles que decidiram vivenciar aquele momento histórico a dobrar fazendo da rádio o guia-áudio daquela partida) existe ainda uma voz que ecoa na nossa mente. Uma voz que ainda hoje nos consegue transportar para lá assim que ouvimos os relatos daqueles dois golos e aquele “acabou” que tinha em si todas as emoções do mundo.

Os The Buggles cantam que “o vídeo matou a estrela da rádio”, mas a verdade é que ter um comentador/relatador desportivo de qualidade que é capaz de levar o ouvinte ao relvado, descrever o que está a acontecer, dar ao ouvinte todas as informações, mas também “pintar fotos”, sendo capaz de, através da sua voz, nos fazer sentir presentes ali é evocativo.

E em Guimarães temos qualidade que transborda. Os comentadores/relatadores das rádios locais têm o conhecimento, a autoridade, a clareza e o sentimento que tornam cada grito de golo do Vitória único e memorável.

Podíamos pensar que nestes tempos modernos em que a Internet e a televisão nos conseguem mostrar todos os detalhes do que se passa num jogo de futebol a rádio se tornaria obsoleta, mas a realidade é que a rádio tem-se vindo a modernizar atraindo mais ouvintes e tem tido a capacidade de manter os seus velhos ouvintes fiéis devido à mística por detrás da rádio. As vozes da rádio deram vida a muitas das nossas melhores lembranças do futebol do Vitória.

Há duas épocas, quando não tínhamos conseguido bilhetes para Chaves, a minha mãe disse algo que na altura me fez rir à gargalhada “não tem problema, vamos para Chaves e ficamos no carro a ouvir os golos na rádio. Assim ainda ouvimos os golos antes do estádio”.

Durante o Mundial tornou-se viral um vídeo de um senhor no meio de uma multidão que via o jogo do Brasil na televisão. O senhor começou a gritar golo. Todos olharam para ele confusos com o que se estava a passar e a achar que estava maluco. Passados alguns segundos a televisão mostrava o golo do Brasil e todos correram para abraçar o senhor. Ele não estava maluco. Ele estava era a ouvir o relato do jogo da rádio e soube do golo antes de todos os outros que acompanhavam pela TV.

Essa sensação de imediatismo, aliada ao ainda fascínio pela magia da rádio fazem com que a rádio esteja viva e seja a opção de muitas pessoas para “verem” os jogos do Vitória.

No carro, em casa ou até mesmo o estádio (ainda há muitos vitorianos que acompanham os relatos enquanto estão no estádio a ver o jogo ao vivo), as fascinantes vozes da rádio ainda continuam a dar vida a muitas das nossas melhores lembranças do futebol do Vitória.

Sandra Fernandes, 27 anos, é orgulhosamente vimaranense, Vitoriana e Potterhead. É licenciada em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, Mestre em Gestão Desportiva pela Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e Especialista em Organização de Eventos e Protocolo Desportivo pela Universidad Camilo José Cela. O coração costuma falar mais alto do que a razão quando se trata do Vitória, mas vai tentar partilhar o que lhe vai na alma à segunda-feira.