A Europa e a ameaça de Trump

A visita de Trump à Europa, para participar em várias reuniões de alto nível, permitiu-lhe vincar os seus objetivos políticos, exibindo a já desrespeitosa sobranceria de que faz gala, o distanciamento para com os anfitriões e até o comportamento grotesco na relação que cultiva com os seus pares.

A conduta política bem como a postura cívica que se exige a um líder, mesmo ao da maior potência mundial, para Trump são algo de desprezível. O que prevalece na relação com os outros líderes é o taticismo do negociante trauliteiro, que agora diz uma coisa e logo a seguir afirma o seu contrário, com a maior desfaçatez alguma vez exibida por um chefe de estado. A estratégia não é casuística, antes pretende, por essa via, alcançar egocêntricos objetivos que o animam.
A Europa, e particularmente a União Europeia, ou acordam para uma nova realidade mundial, a da era Trump, ou ver-se-ão a braços com problemas de toda a ordem, não estando, de todo, preparadas dada a sua complexidade e amplitude. O “modelo” Trump está a ganhar adeptos em vários países do globo e todos quantos profetizaram a sua queda a curto prazo, face a tão bizarra conduta como governante, são os mesmos que agora reconhecem que o mundo está a mudar, inspirado na lógica política vinda da América dos nossos dias.

Esta viragem política, sobretudo para e na Europa, impõe preocupações que até agora os seus vários países não tiveram. Em matéria de defesa, o nosso Continente sempre se sentiu confortável debaixo do chapéu que a NATO lhe oferecia. Erro crasso e indesculpável, como agora se vê. Não é necessária experiência nesta matéria para se saber que a liderança mundial, e mesmo a relação entre países vizinhos, em última instância, assenta sempre na sua força militar. Em tempos de paz é uma “arma” dissuasora, como convém, em momentos tensos sustenta interesses políticos ou de outra natureza, sempre que necessário.

A Coreia do Norte queria sobressaltar o mundo exibindo o seu pretenso poder bélico. Trump, com todas as charlatanices que se lhe reconhecem, em resposta, exibiu o seu potencial militar e calou o inimigo. Ainda que ninguém saiba o que foi negociado entre as partes, a verdade é que as notícias assustadoras à volta do tema esmoreceram. E Trump exibe um triunfo que o vai afirmando. Para ele foi importante verbalizar a sua capacidade militar e a “arma” a que deitou mão, nesta, como noutras negociações, traduz-se na verborreia que o caracteriza, visando sempre atingir os seus fins, à margem da diplomacia tradicional.

Há dias, Trump utilizou a mesma metodologia, quanto à NATO, nas reuniões que teve nos vários palcos da União Europeia. Foi exigente (aqui com razão) perante os seus líderes, impondo-lhes o cumprimento dos acordos firmados. Para logo a seguir os deixar inseguros apodando-os de inimigos. A reação da União Europeia foi a que se ouviu de alguns líderes europeus, nomeadamente a de António Costa, que classificou a reunião como uma coisa horrível.

Não satisfeito com as tentativas de distanciamento, dir-se-ia mesmo de desprezo, das negociações em Bruxelas, Trump rumou ao Reino Unido, onde grotescamente humilhou a Primeira Ministra Theresa May. A acrescer a tais disparates diplomáticos, foi boçal para com a Rainha de Inglaterra, que nunca antes terá sido alvo de tanta grosseria na sua já longa vida pública.

“Espetáculo” terminado em Londres, Trump parte para a Finlândia onde se encontra com o seu amigo Putin. Aí, mostra-se um Trump transfigurado. Os seus objetivos para com o líder russo impunham o agradecimento pelo auxílio concedido no ato eleitoral, que o catapultou ao poder presidencial. E, na medida em que conhece os sonhos expansionistas de Putin, elege-o o parceiro ideal para fragilizar os países europeus. A fragilidade resultante do recrudescimento do populismo em vários países da Europa serve, à saciedade, os apetites do negociante Trump. Ao mesmo tempo satisfaz os interesses do seu amigo Putin, que continua a sonhar com o império fragmentado pela Perestroika.

Num anterior artigo de opinião sobre a União Europeia procurei demonstrar os problemas internos com que a União se debate e que a fragiliza interna e internacionalmente. A era Trump veio, lamentavelmente, tornar ainda mais atuais e preocupantes os problemas existentes e que se adivinhavam. Uma União Europeia partida ao meio, em termos ideológicos e políticos, sem força, é presa fácil para os seus inimigos. Quer eles se chamem Putin ou Trump.

Guimarães, 19 de julho de 2018

António Magalhães