Uma marcha antecipada numas Gualterianas em restruturação

A marcha que, ano após ano, leva milhares às ruas para o encerramento das Gualterianas vai arrancar, na segunda-feira de 06 de Agosto, às 22:00. Para além de sair uma hora mais cedo do que o habitual, o cortejo vai ter mais atuações nos espaços que separam os carros alegóricos, nove ao todo. Com um programa que se estende da Plataforma das Artes ao teleférico, as festas vão ser repensadas quanto ao uso da Alameda de S. Dâmaso e ao futuro da Batalha das Flores e do Cortejo do Linho, admitiu a vereadora da Cultura, Adelina Paula Pinto.

 

A girândola de fogo que costuma anunciar a saída à rua da Marcha Gualteriana vai, neste ano, rebentar no céu noturno de Guimarães, a partir das 21:45. A antecipação das 23:00 para as 22:00 foi a consequência das queixas já ouvidas em edições anteriores, quanto ao (muito) tempo de espera a que os espetadores eram sujeitos. “Muita gente dizia-nos que aquele compasso de espera, numa festa para a família, era um momento mais complicado. Apesar do esforço dos últimos anos para a marcha sair à hora, há sempre o compasso de quem vem à cidade e fica sempre um compasso”, reconheceu a vereadora, durante a apresentação de mais um programa das comemorações com 112 anos de existência, decorrida na Casa da Marcha.

Rodeado por muitas das peças construídas em anos passados, o presidente da Associação Artística da Marcha Gualteriana (AAMG), José Pontes, anunciou que a marcha vai percorrer, neste ano, as ruas em torno do centro histórico com nove carros alegóricos – Cidade, República Checa, Brave – Indomável (o carro das crianças), 115 anos da Sociedade Musical de Guimarães, Universidade do Minho, Havai, Música no Coração, Arte Barroca e Balonas. E haverá mais atuações quer nos intervalos entre os veículos, salientou, quer até numa das viaturas (Música do Coração), com a música ao vivo da banda da Sociedade Musical de Pevidém.

A maior presença de “números vivos”, como descreveu o presidente da Câmara, Domingos Bragança, foi o resultado da ligação estabelecida com as associações culturais e recreativas do concelho para colmatar as perdas sentidas nos últimos anos, seja com teatro, com música, com folclore, com cantares ao desafio ou com bombos. “Trazem muita riqueza à marcha esses números vivos que, a cada ano, iam perdendo importância. Essa importância não se pode perder, porque essa é uma parte que as pessoas gostam muito”, considerou.

Para o autarca, a participação das entidades culturais no espaço público enriquece não só os protagonistas da Marcha, os carros alegóricos, mas também abre espaço à inovação e à novidade nas atuações com que, ano após ano, os milhares de espetadores são presenteados. “A inovação é o que apela à nossa inteligência e criatividade. O que se repete vai perdendo importância. Para os números vivos, melhor do que ninguém, as associações culturais fazem as produções que têm nesse ano, com aquilo que têm de mais satírico, de mais divertido, de mais dramático”, defendeu, antes de reconhecer que a ligação com os grupos concelhios precisa ainda de ser mais estreita, de forma a garantir, no próximo ano, uma “melhor colheita” ao número que encerra as festas.

A Marcha Gualteriana não vai, contudo, estar só na rua. O seu passado vai, também, poder ser revisitado através das memórias de José Pontes, obreiro desde os anos 70 e presidente da AAMG desde 2015, em mais um Guia de Visita da Casa da Memória, marcado para as 17h00 de sábado, 04.

 

Falta espaço para guardar as obras da Marcha

Questionado ainda sobre a falta de condições de trabalho dos obreiros da Marcha, Bragança realçou que o principal problema com o qual a associação organizadora se depara é o espaço insuficiente para guardar as “obras-primas” criadas, tendo, várias vezes, que as “desmantelar”. “Perde-se passado algum tempo. Temos procurado respostas. Se houver associações, empresas ou instituições que encontrem espaço para as obras perdurarem no tempo, ficamos muito satisfeitos”, afirmou. O autarca considerou, porém, inviável guardar toda a obra produzida, quer por considerar improvável a cedência de um espaço com 5.000 a 10.000 metros quadrados, quer pelos materiais utilizados na construção dos carros alegóricos, normalmente perecíveis, que iriam requerer muitos cuidados para não se degradarem.

 

Blind Zero e AGIR na Plataforma. Fado em Donães

Até ao seu término, as Gualterianas prosseguem, desde sexta-feira, 03, com os desfiles dos bombos e também das charretes pelas várias ruas da cidade, com as concertinas e o folclore no Toural, com as ‘roulottes’ de farturas e de bifanas desde o Campo da Feira até à zona do teleférico, onde se encontram as diversões das festas.

Na outra extremidade, a Plataforma das Artes, substituta do Largo da Misericórdia como palco dos principais concertos, vai receber, na sexta, os portuenses Nova, às 21h30, e os Blind Zero, banda da mesma cidade que vai apresentar o seu oitavo álbum, “Often Trees”, a partir das 22:30. No dia seguinte, é a vez de Agir, músico que realizou mais de 100 concertos nos últimos dois anos, subir ao palco para apresentar o mais recente trabalho, “No Fame”. Já o domingo reserva a atuação do cantor vimaranense de cunho popular Carlos Ribeiro, autor de canções como “Português emigrante”, em dueto com José Figueiras, apresentador de televisão, que ficou também conhecido pelo tirolês, há cerca de 20 anos, às 22:00.

No centro histórico, a música vai ser outra. O largo de Donães vai ser o coração do fado, ao receber na noite de sexta-feira uma atuação de Fado de Coimbra, no sábado uma atuação de Fado de Guimarães, baseado, fundamentalmente, nas tradições de Coimbra e de Lisboa, e, no domingo, um espetáculo assente na tradição lisboeta.

Com um orçamento que ronda os 250.000 euros, as Gualterianas querem assumir-se “as festas maiores do concelho”, umas festas do povo, nas quais vão sendo introduzidos “valores contemporâneos” e não os de há 30, 40 ou 50 anos. “Os nossos antecessores também introduziram os seus valores contemporâneos. Temos de introduzir aquilo que pensamos que é hoje a nossa cidade, a nossa comunidade vimaranense, a nossa cultura contemporânea”, reiterou.

Ligada à génese das festas, em 1906, a Associação Comercial e Industrial de Guimarães (ACIG) marcou também presença na apresentação, com a representante, Adriana Tavares, a sublinhar que as Gualterianas atraem milhares de pessoas a Guimarães e são, por isso, “muito importantes” para o comércio e para a economia da cidade.

 

A alameda precisa de ser repensada. A Batalha das Flores e o Cortejo do Linho também

Criadas em honra de São Gualter, frade franciscano que se instalou em Guimarães no século XIII, depois de ter sido enviado para a Península Ibérica por Francisco de Assis, as festas têm o seu coração litúrgico nas igrejas de S. Francisco, onde foram encontradas as ossadas de São Gualter, em 2009, e naquela que é habitualmente designada pelo nome do santo, no Campo da Feira. Além das festividades e da procissão de domingo, a Igreja de São Francisco vai receber um concerto de música coral, na sexta-feira, às 21h30, e um outro, do guitarrista Nuno Cachada, no sábado, à mesma hora. Ao lado, a Alameda de São Dâmaso vai receber a Trupe Sei nos três dias, e ainda uma sessão de cantares ao desafio, na sexta-feira, e a atuação de Ção Pitada e de Luís Almeida, no sábado.

Antiga zona de exposição de artesanato, a alameda, sobretudo nas imediações da Igreja de S. Francisco, “está muito desocupada”, reconheceu Adelina Paula Pinto. Para criar um “rol de continuidade” entre a Plataforma das Artes e o teleférico, a vereadora assumiu que a Câmara está a trabalhar com as associações para encontrar uma solução que estabeleça ali “um corredor cultural, diversificado, que faça a ponte entre as várias áreas” – “uma área de divertimentos, uma área mais litúrgica, uma área mais do fado e das oficinas no intramuros e uma área mais festiva na Plataforma das Artes”. O presidente da Câmara reconheceu igualmente a crítica da população quanto ao afastamento das Gualterianas das duas igrejas e a necessidade de preencher a Alameda de São Dâmaso com “atividades adequadas àquele espaço”.

Guimarães vai também comemorar as Gualterianas sem a Batalha das Flores ou o Cortejo do Linho, dois números que costumavam alternar entre si em edições passadas. Estas tradições, realçou a vereadora para a cultura, vão ser discutidas na semana imediatamente a seguir às festas, porque necessitam de um “pensamento estruturante”. “Vamos pensar muito bem sobre o que correu bem e o que correu mal, e então, sim, desenhar um mapeamento do que queremos para os próximos anos”, adiantou.