A arte do fingimento

“O poeta é um fingidor. Finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente. (…)”. Não fora ser de Pessoa, diria que esta estrofe é o mantra por que se guiam – cega mas empenhada e deliberadamente – BE, PCP e PEV.

Vem isto a propósito de uma curta – mas impressiva – notícia da atualidade vimaranense que dava ontem conta de que os tribunais de Guimarães funcionam sem papel, bem como da “preocupação” do BE com a falta de consumíveis nos Tribunais da Comarca de Braga.

O assunto é sério e não é novo. E também não é nova a arte da austeridade em jeito de cativações, que a geringonça ora nega, ora critica, mas que todos os dias sufraga no Governo e no Parlamento. O que é nova – mas já indisfarçável – é a crescente desfaçatez da maioria parlamentar.

Se até aqui BE, PCP e PEV ainda cuidavam de mascarar o fingimento em que vivem, agora que se aproximam eleições, a farsa adensa-se a cada dia que passa, berrando na rua o que todos os dias consentem no Parlamento.
Este episódio que já em Março o PCP protagonizou, exactamente a respeito da falta de consumíveis nos Tribunais de Braga, e que o BE agora repete em Julho, comprova isso mesmo. BE, PCP e PEV negociaram cada um dos três orçamentos do Governo PS; aprovaram, sem pestanejar, orçamento atrás de orçamento, verba após verba, cifra depois de cifra.

Cada orçamento é, pois, da responsabilidade de PS, BE, PCP e PEV. E, por isso mesmo, cada falta de papel, cada falta de tinteiros, cada falta de qualquer consumível nestes Tribunais é, única e exclusivamente, da responsabilidade de PS, BE, PCP e PEV.
Vir para a rua denunciar cativações, gritar que faltam recursos básicos e clamar por mais, quando são esses mesmos partidos que sancionam as cativações e os montantes alocados a cada Ministério, é de uma hipocrisia assinalável e não passa de um engodo para enganar eleitores, fazendo de conta que discordam daquilo que validam.

É exactamente como o poeta – BE, PCP e PEV fingem tão completamente que chegam a fingir que é preocupação a preocupação que deveras sentem. Com uma diferença, que não é de todo desprezível: na poesia, quando muito, retrata-se ou caricatura-se a realidade e não há consequências; na geringonça, a realidade é imposta por PS, BE, PCP e PEV e o resultado está à vista. Na Justiça, na Administração Interna, na Educação ou na Saúde. Nada escapa. Resta saber como vai acabar e com que efeitos…

Vânia Dias da Silva, Deputada do CDS-PP