Gualterianas

As festas Gualterianas começavam, desde sempre, para mim muito mais cedo, desde a criação dos desenhos que fui sempre acompanhando até à sua concretização em grandes carros alegóricos.

Em noites quentes e já de férias da escola acompanhava os trabalhos dos obreiros, correndo no grande pavilhão e guardando na memória o cheiro à madeira, à cola e à tinta. Guardo também na memória o sumol de laranja que bebia quando eram distribuídas as bebidas pelos obreiros para se hidratarem e para descansarem.
Guardo no álbum de fotografias todos os carros da criança e da cidade onde me era permitido fazer poses para guardar memórias de infância ao mesmo tempo que se eternizavam trabalhos que demoram 3 meses a construir para acabarem destruídos numa noite.

Muito se fala de tradição e de estranheza pela opções que têm vindo a ser feitas de afastamento da festa da cidade do seu centro. Muito se fala de voltarmos ao que era e de não se provocar a decadência de um momento tão especial para Guimarães.

Somos capazes de aceitar transformações. Não ficamos revoltados com o fim da tourada, parte do programa das festas durante anos. Não ficamos ofendidos com o fim do fogo-de-artifício que anunciava as festas todas as noites perto da meia-noite, porque sabemos que podem ser prejudiciais. Não ficamos espantados que o horário da Marcha se adapta às novas rotinas, uma vez que nem toda a gente tira férias em Agosto, por isso adaptar o horário é corresponder às necessidades da população e atrair visitantes dos concelhos vizinhos.

Mas os vimaranenses reclamam justamente que se devolva a festa à cidade, que se encham as ruas de tendas com produtos mais ou menos interessantes, que se devolva a feira de artesanato que se devolva sobretudo o movimento o frenesim e a alegria às ruas da cidade.

E porque já tínhamos levantado esta questão noutros anos e nos locais próprios hoje escolhi escrever sobre as Festas Gualterianas. Um momento do ano que me liga à cidade, um momento do ano que evito estar longe, um momento do ano em que tento trazer amigos para conhecerem mais sobre a nossa identidade.

Por toda esta relação próxima com as festas da cidade não posso deixar de me sentir admirada com o comunicado do senhor Presidente da Câmara Municipal, apelando a que os vimaranenses vivam as festas da cidade e que recebam os visitantes “de fora e de dentro” como sempre receberam.
Promete o Presidente da Câmara, para além disso, um debate alargado sobre o futuro das festas Gualterianas, parecendo que as críticas e o descontentamento dos vimaranenses chegaram finalmente a Santa Clara.Descontentamento já anunciado pela CDU e que o senhor Presidente, no seu segundo mandato, resolveu ignorar mais uma vez.

No entanto, mais vale tarde do que nunca e a promessa de ouvir para melhor fazer não lhe fica mal. Da minha parte, sei que todos vão receber os foliões da melhor forma, que sabem e podem, e que a multidão que assistirá à Marcha Gualteriana não estará lá porque o senhor presidente apelou, mas sim porque querem aplaudir o trabalho de 3 meses dos obreiros que deixam as suas famílias para que na grande noite o desfile seja grandioso e inesquecível.