AMIZADE

Vem este tema a propósito de um rumor que circula pela cidade, de que há um ex-presidente da Câmara que perdeu todos os amigos, que ninguém gosta dele, etc.

Se perdeu todos os amigos, é porque eram falsos, e perder os falsos amigos, até é bom!

O meu problema é ao contrário do ex-presidente – não sei quem será, como há vários, mas seja quem for, não interessa. Eu ando à busca de bons e sinceros inimigos, e só me tem aparecido gajos foleiros; detesto os falsos inimigos! Quem ler este texto, sempre dirá para si: – este gajo é diferente das outras pessoas, prefere inimigos a amigos (?).

Pois, mas são os meus queridos inimigos, que me oleiam e estimulam as minhas convicções ideológicas e o pensamento crítico, sobre eles e a sociedade. Perante o situacionismo; o convencional e o status quo, que todos os partidos e instituições defendem; há muito caminho a desbravar para uma “ovelha negra fora do rebanho” – Numa sociedade injusta, quem se não manifesta com indignação está fazendo parte do problema!

Talvez eu mude de ideias quando for rico (?) Nessa altura, arranjarei amigos de luxo, talvez ainda mais ricos do que eu; arranjarei também um grupo de engajados para me limpar as botas, tirar-me o cavalo da chuva e limpá-lo.

Num país de imbecilizados, como dizia Guerra Junqueiro e Torga, não me será difícil arranjar este género de pessoas.

Voltando à amizade, lembrei-me de um indivíduo cá da cidade, “ligado à cultura”, com êxito em amizades megalómanas: há tempos, numa tertúlia sobre coisas da cultura, quando algum dos presentes falava em nomes sonantes da cultura portuguesa, ele levantava a voz dizendo: “é meu amigo”; falou-se num outro nome nacional da TV – volta de novo: “é meu amigo”.

Não há dúvida, a cultura local tem bons representantes e de boas amizades. Antes de terminar o tema da amizade, lembrei-me dar a palavra a alguns pensadores, para lermos o que eles dizem sobre o assunto:

Françoise Giroud: Um presidente não tem amigos!

Vittorio da Sica: A Bíblia ensina-nos a amar os nossos inimigos como se fossem nossos amigos. Provavelmente porque são as mesmas pessoas.

Baltazar Gracián Y Morales: Ao homem sábio são mais úteis os seus inimigos do que ao tolo os seus amigos.

Alphonse Karr: entre dois amigos, apenas um é amigo do outro.

Lucano: Ninguém jamais escolheu como amigos os que estão na extrema miséria.

Ovídeo: Ninguém jamais procurará o amigo que perdeu sua fortuna.

(…) “A maior dor dos pobres é que ninguém necessita da sua amizade”!

(…) “O pior dos inimigos é o falso amigo”!

Provérbio: Se a amizade fosse dinheiro andava carregado de notas falsas.

António Alvão, Reformado e militante da luta não abandonada.