GENTE VIGENTE

Por César Elias

As pessoas transformam-se no mês de agosto. A vida hipnotiza-se. Há uma espécie de ecdise humana que larga um rasto do suor dos sentimentos, das lágrimas do trabalho e também da criação. A cidade é muito melhor do que nós, não se refresca nem rompe a atitude, apenas ferve, árida, muito inerte, imortalmente pasmada para o lugar das nuvens, azul.

Parece haver no nosso “ermo” uma magnificência que se vê no passo do compasso dos dias deste mês. Talvez por sermos magníficos, nós, os cuidadores da terra, os jardineiros deste verde do mundo, deste socalco que não queremos ver demasiado moderno. Talvez por sermos pais fervorosos do vale que nos enraíza a gratidão de havermos nascido, agradecidos nos abraços de setembro e sequiosos pelos bombos de novembro.

As noites guardam a disposição e aconchegam os que ficam na cidade. Esses são os guardiões do burgo e merecem beber a água mais cristalina e revigorante, pois se não é dessa lealdade tudo havia de se ver desprovido, uma nudez insustentável e inaceitável seria o bastante para que brotasse no ardente azul nuvens negras de um fogo sozinho. E o que seria da terra sem os guardiões na hora de receber os valentes emigrantes? É que muito pior do que viver distante, largado da eterna liana umbilical, é vir para ver a terra e esta não ter como nos receber.

A cidade é muito melhor do que nós. Nunca nos abandonará. E eu acredito que por estes dias ela chora pelos braços das árvores a saudade dos filhos. Talvez pela saudade da voz do artista, do passo irrequieto do advogado, do sorriso do alfarrabista, do martelo do senhor Gaspar, do tremor quando se ouve vitória ou tão simplesmente pela vontade de nos amar. A nós. A todos nós.

A cidade é muito melhor do que nós. Nunca nos abandonará do seu coração.

De ti eu sei
É o que todos buscam
E mais fácil será o púlpito da calamidade
Do que saber o que de ti eu sei
Sei amor como nunca acreditei existir
Esse esquadro que te é do coração às palavras
Esses gestos que emolduraram figuras de amor
Essas páginas loucas que reclamam amor ao mundo
Amor profundo
Que o aroma dos limites dos teus campos é o que sei de ti
Escorripichado nas balaustradas daquilo que criaste
De ti eu sei esse amor, cidade.