O descanso e a diversão

O último fim-de-semana ficou marcado em Guimarães pela segunda edição do Vai m’à banda. A iniciativa promovida pela Revolve e Câmara Municipal de Guimarães levou milhares de pessoas às tascas e tabernas vimaranenses, para usufruir do melhor da nova música portuguesa.

Este é um projeto que, tendo o mérito de dar a conhecer a nova música portuguesa, leva os vimaranenses e quem nos visita, a locais com história e memória. Memória essa que corre o risco de se perder se não formos capazes de encontrar alternativas de as trazer até às novas gerações.

A minha reflexão desta semana tem, contudo, especial enfoque no momento final, com música no Largo do Trovador que terminou às 2 horas da manhã em ponto. Um evento que dá sequência a uma programação de verão que contou, duas semanas antes, com o L’Agosto que terminou às 4 horas da manhã.

Este tipo de iniciativa, pelo ruído criado, gera alguma contestação e desconforto para alguns moradores. Por outro lado, são também apreciadas pelos milhares de pessoas que deles usufruem e por outros moradores daqueles lugares que agradecem que lhe seja trazida até às suas ruas a vivacidade sentida noutros pontos da cidade.

Curiosamente, em ambos os eventos, confrontei-me com duas reações totalmente dispares que merecem reflexão. Se por um lado há quem tenha pedido (até de forma direta ao vocalista Paulo Furtado, no concerto de The Legendary Tigerman) que pudessem descansar, outros comentavam a ausência de alternativa para quem defende ter o direito a uma oferta para lá das horas da manhã de fecho dos bares.

Esta é, aliás, uma reflexão que já foi feita, por exemplo, no FreePass Guimarães, pelo Ivo Rainha (https://www.fpguimaraes.pt/fragil-noite-vimaranense-pequena-movida/), apesar de, neste caso, estar mais focada na diversão do que em programação cultural que ocupe esse período da noite.

Em primeira instância, parece-me que parte do problema, pelo menos aquela que diz respeito à diversão pura e dura, poderia ser resolvido pela iniciativa privada. Se há quem tenha vontade de ter um espaço alternativo às discotecas mais comerciais e eletrónicas no pós-duas da manhã, é uma oportunidade de negócio que (aparentemente) está disponível.

Se é verdade que esta iniciativa privada carece também de aprovação de licenciamento municipal, não me parece que com o projeto acertado em termos de insonorização houvesse algum tipo de entrave. Até porque as tais discotecas comerciais já funcionam nestes horários.

Por outro lado, se o papel de definição de políticas culturais, e das suas formas no que ao usufruto diz respeito, parece ser um problema diferente da falta de espaços comerciais alternativos à primeira vista, a solução de parceria entre a Câmara Municipal do Porto e a Lovers & Lollypops para o Aniki Bobó pode ser uma pedrada no charco nesta interpretação.

Este é um tema que merece mais reflexão aprofundada. Sem dogmas e sem o colocar no patamar de uma diferença geracional. Sem o quartar à partida pela lei do ruído, quando é possível com a localização e construção certa fazer face a esse problema, mas também sem colocar como certeza a absoluta necessidade de tornar o espaço público em discoteca ao ar livre pelo “direito à diversão”.

Paulo Lopes Silva, 30 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Líder parlamentar da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães, de que é membro desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.