Pedrógãos Grandes

É impossível assistir à reportagem da TVI sobre o mais recente escândalo em Pedrógão Grande sem sentir uma náusea no espírito, uma profunda revolta, a mais genuína indignação.

Sem o brilhantismo de João Miguel Tavares (https://www.publico.pt/2018/08/28/politica/opiniao/pedrogao-uma-raiva-a-nascerte-nos-dentes-1842192) associo-me ao grito de desespero por um país que é o meu e no qual não quero, não posso, não aceito rever-me.

Confesso não apreciar o estilo justiceiro de Ana Leal. Mas num país em que a justiça tarda e tantas vezes falha e em que a ética e a moral foram relativizadas ao ponto da inexistência, resta-nos algum (pouco) jornalismo de investigação que corajosamente agite as águas e desfie o fio de novelos tão escondidos e tão sujos.

Portugal é um país em implosão. Não é preciso licenciatura em engenharia para perceber que o princípio da implosão implica a ruptura dos vínculos estruturais mais elementares. Que num país serão porventura os valores e a justiça.

E os cidadãos têm responsabilidade neste estado de coisas. Um Estado que não tem os seus cidadãos a zelarem atentamente pelo país que querem caminha inexoravelmente para um triste fim.

Eis a falência de um Estado: a corrupção dos valores das suas gentes e a falta de justiça eficaz e atempada, terreno fértil para a impunidade de que Pedrógão Grande é mero exemplo.

Não é despiciendo o contributo daqueles cujo poder emana dos próprios cidadãos, dos que os representam para gerir os destinos colectivos. Em Pedrógão Grande aparentemente terá sido um Vereador a propor a adulteração fraudulenta da morada fiscal para garantir fundos para a “reconstrução” de casas não prioritárias no esforço nacional para recuperar a normalidade de vidas destruídas pelas chamas.

Ao que parece alguém acreditou e fez acreditar que a mera alteração da morada fiscal dava o direito a receber uns “fundos” para reconstruir casas de segunda habitação com o dinheiro dos outros, tantas aparentemente em ruína já antes do incêndio. Se cumpria as regras burocráticas estava tudo bem… Só que não.

E nessa relativização dos valores está o terrível exemplo que vem de cima para que todos possamos usar a mesma régua adulterada para avaliar a nossa conduta.

A Câmara Municipal de Pedrógão Grande emitiu entretanto um comunicado (https://www.cm-pedrogaogrande.pt/index.php?option=com_content&view=article&id=672:comunicado&catid=45:noticias&Itemid=125) para: informar que iria submeter as denúncias para apreciação do Ministério Público; informar que iria processar a estação televisiva e a jornalista por difamação; explicar alguns dos casos que não soube ou não quis explicar na reportagem.

Ninguém se demitiu. Ninguém se responsabilizou.

Não bastavam os escândalos com o cartel do fogo e com os donativos para as vítimas dos incêndios, tinha que aparecer mais esta vergonha nacional – porque nos envergonha a todos.

Talvez Portugal seja um país pobre e endividado porque antes de mais vendeu os valores e logo a seguir tudo o resto.

A troco de muito presente e de futuro nenhum.

 

Alexandre Barros Cunha, 34 anos, engenheiro civil de formação abraçou a gestão de operações por vocação. Tendo liderado a JSD em Guimarães e no distrito, é hoje deputado municipal, vice-presidente do PSD Guimarães e membro do Conselho Nacional do PSD.