Estudo sobre as Nicolinas apresentado a 13 de Dezembro

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O antropólogo Jean Yves Durand vai apresentar o trabalho desenvolvido nos últimos sete anos, no dia em que Guimarães comemora o 17.º aniversário da elevação do seu centro histórico a Património Mundial da Humanidade. A Romaria Grande de São Torcato e a tradição das passarinhas e dos sardões podem vir a acompanhar as Nicolinas no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

Os resultados da investigação levada a cabo sobre as Nicolinas ao longo dos últimos sete anos pelo antropólogo Jean-Yves Durand vão ser conhecidos em 13 de Dezembro, o primeiro dia da segunda edição do “Em Concreto – Património Cultural Imaterial no Terreno: Expetativas, Experiências e Perspetivas”, encontro organizado pela Câmara Municipal, pela Oficina e pelo Centro em Rede de Investigação em Antropologia (CRIA), da Universidade do Minho, que se estende até ao dia 14.

Perante a possibilidade de candidatar a Património Imaterial da Humanidade o culto estudantil a São Nicolau, ligado há mais de três séculos ao território vimaranense, a Câmara encomendou, em 2011, o estudo. Em março de 2014, numa apresentação intercalar da investigação, Jean-Yves Durand mostrou-se cético quanto às vantagens das festas serem elevadas a Património Imaterial da UNESCO, apesar de ter elogiado a sua originalidade e defendido que as Nicolinas não perdem importância pelo facto de não receberem esse estatuto.

Quatro anos depois, o antropólogo vai apresentar, às 16:00, todo o trabalho que desenvolveu no âmbito das Nicolinas, e a vereadora com o pelouro da cultura, Adelina Paula Pinto, reconheceu que ainda é necessário definir o espaço para a apresentação, pela discussão que se pode gerar em torno do assunto entre a sociedade civil.

“Provavelmente, vamos fazer algumas alterações em termos de espaço, para haver um auditório que permita a toda a gente que queira assistir a dimensão que o estudo merece”, realçou durante a conferência de apresentação do “Em Concreto”, decorrida esta terça-feira, na Casa da Memória. “Estas candidaturas, nomeadamente as imateriais, não podem nunca ser alinhadas por meia dúzia de pessoas no gabinete. Têm de ser refletidas pela comunidade. Vamos preparar-nos para que o estudo antropológico tenha a dimensão que merece”.

Ao recordar que a candidatura da zona de Couros a Património Mundial está em marcha, a responsável considerou ainda que é “muito mais fácil trabalhar com a UNESCO” em termos de património material do que imaterial, por ser “mais quantificável, mais observável”.

Organizada pela primeira vez em dezembro de 2016, a conferência inclui ainda, no primeiro dia, palestras sobre o trabalho das Câmaras Municipais e das comunidades em três manifestações imateriais – as Nicolinas, em Guimarães, a Festa das Rosas, em Vila Franca do Lima (concelho de Viana do Castelo), e a Bugiada e a Mourisqueira, em Sobrado (município de Valongo – e ainda a partilha do norte-americano Anthony Seeger, especialista em etnomusicologia, que já acompanhou candidaturas à UNESCO ligadas ao património imaterial. O segundo dia centra-se no debate entre representantes das universidades e das instituições políticas e culturais.

Ao perspetivar o seminário, Adelina Paula Pinto salientou que o património imaterial tem “uma ligação muito direta a cada município”, sendo um dos caminhos traçados pelas autarquias na “busca da sua identidade”. Defendeu, por isso e pelo facto de ser precisa “muita investigação e muito cruzamento de dados”, a necessidade de “regras muito específicas” para se classificar o património imaterial.

Também presente na apresentação do “Em Concreto”, a diretora da Casa da Memória, Catarina Pereira, disse que o encontro vai ajudar a perceber que processos conduzem à patrimonialização do que é imaterial e os efeitos que têm nos municípios e nos seus habitantes.

 

Valor imaterial da Romaria Grande de São Torcato em estudo

A Casa da Memória tem, em curso, uma parceria com a Irmandade de São Torcato para a investigar a Romaria Grande de São Torcato. O intuito desse projeto, esclareceu Catarina Pereira, é fazer uma proposta de inventariação desta manifestação com origens no século VIII ou IX que comemora, desde 1852, a trasladação do corpo de São Torcato, arcebispo de Braga nos séculos VII e VIII, da igreja medieval até à basílica, no primeiro domingo de julho.

A diretora da Casa da Memória lamentou, no entanto, a demora a que tais processos de classificação são sujeitos, devido à inatividade da Direção-Geral do Património Cultural, quanto ao Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial. “A sua base de dados está constantemente a falhar. Não conseguimos trabalhar e submeter as propostas de inventariação”, explicou. O segundo dia do seminário vai também servir para discutir a reformulação do dispositivo português de inventariação, que, para Catarina Pereira, precisa de “novas soluções, mais expeditas”.

Além da Romaria Grande, a Câmara também já decidiu, na sequência de um levantamento em parceria com a Oficina, realizado em 2012, que a confeção das passarinhas e dos sardões, doces com conotação sexual vendidos nas romarias de Nossa Senhora da Conceição, a 08 de Dezembro, e na de Santa Luzia, a 13, tinha de ser estudada de forma a ser salvaguardada e inventariada. O primeiro dia do “Em Concreto” termina, aliás, com uma visita à romaria de Santa Luzia.