“Preciso me encontrar”

Este texto deve de ser lido ao som da música “Preciso me encontrar” do artista brasileiro Cartola.

Dedicado ao meu amigo Mário Roma, “meu Rei”, sangue do Brasil Ride.

“Deixe-me ir. Preciso andar. Vou por aí a procurar. Sorrir para não chorar.”
Sobre estas coisas que nunca lhe disse, quero que saiba que eu também tenho sustos, temores; que também eu duvido, vacilo e hesito. A medo, avanço, sempre. Nunca recuo. Quero que saiba que nem sempre sei para onde vou: só sei que vou. Sigo. Avanço. Que sou coragem. Que o caminho se faz caminhando.
“Deixe-me ir. Preciso andar. Vou por aí a procurar. Sorrir para não chorar.”
Sobre estas coisas que nunca lhe disse, quero que saiba que houve um tempo em que só a vontade de querer me valia. Tão pouco queria. Ia. Imaginava um sonho. E, depois, sonhei que o conseguia. Mas quero que saiba, também, que há de épico tanto como de trivial neste ato de ser sem ter; que sou jovial vaidade das miseráveis vitórias.
“Quero assistir ao sol nascer. Ver as águas dos rios correr. Ouvir os pássaros cantar. Eu quero nascer e quero viver.”
Sobre estas coisas de que agora já lhe falei, quero que saiba que fazem o que sou de mim. Que quando uma corrida se monta, sou eu a nascer; que enquanto uma prova se disputa, estou eu a viver. Depois, depois eu fico como as águas que correm: só, num voo nómada, “de cá para lá, de lá para cá”.
“Se alguém por mim perguntar, diga que eu só vou voltar depois que eu me encontrar.”
Sobre estas coisas de que agora já lhe falei, quero que saiba que são gente, são povo, são terras, são países, desejo, façanha, os heróis, as instituições, encanto e (des)encontro. Saiba você que aí me encontra. Pode acontecer de lá chegar e de eu já lá não estar que eu vou onde me leva o movimento pedaleiro, que foi este o legado d’Ele herdado e não há nada menos patriota do que malbaratar aquilo que nos faz bem em bem fazer.
“Deixe-me ir. Preciso andar. Vou por aí a procurar. Sorrir para não chorar.”
Você vai se perguntar quando é que se deixou iludir por um sorriso meu que era choro, na verdade; quando é que me viu num lugar desses e estava eu só a errar; quando julgou ter-me encontrado e eu seguia, de passagem; quando você me guiava e era eu quem ia…
Você julgava que este meu mundo de atleta girava numa rotação perfeita e que os dias eram conclusivos. Você quis crer que a vida me sorriu e aquilo que compõe as horas me foi dado de mão beijada.
Você sabe. Você sabe que fui eu que cresci! “Que as minhas pernas cresceram, que todo o meu corpo cresceu, e até o meu coração ficou enorme” … Você sabe que “dei às aves os meus olhos a beber” por tanto querer.
Você vê que encontro a poesia em verbos como “ir”, “andar”, “procurar”, “sorrir”. Você vê nos meus dias partilhados que cada um, verso ou prosa, tem o desequilibrado ritmo natural àquilo que se leva ao extremo e que, se alguém por mim lhe perguntar, eu me encontro na ordinária pretensão de me fazer imortal.

Ilda Pereira (http://ildapereira.com), 36 anos, licenciada em Ensino de Português e Inglês, na Universidade do Minho, e em Artes, na Escola Superior Artística de Guimarães. Foi oficial da Força Aérea e é corredora internacional de ciclismo desde 2010.