Diário em Lesvos: O voluntário informático

Um jovem afegão, de 23 anos, vivia com a mãe e os cinco irmãos na cidade de Cabul. Em 2016, deixou a família e fugiu do seu país, devido a problemas com a máfia. Mudou-se para o Irão, onde permaneceu durante seis meses, tendo ainda vivido um ou dois meses na Turquia, antes de chegar à ilha de Lesvos.

Na primeira vez que tentou fazer a viagem até à Grécia, foi apanhado pela polícia turca e esteve preso durante duas semanas. Na segunda tentativa, apesar de ter sido uma viagem difícil, com problemas no motor do barco, conseguiu chegar ao destino, com o auxílio da guarda costeira grega. Já no centro de detenção de Moria, juntou-se à irmã e à sua família. Eram seis pessoas, incluindo crianças, a viver numa tenda muito pequena, sem qualquer resguardo para o frio. Após outros sete meses, foram transferidos para Kara Tepe, onde permanecem há mais de um ano.

O jovem é voluntário em várias organizações, contribui na distribuição de água e comida no campo e dá aulas de informática a crianças e adultos. Apesar de ter uma vida melhor em Kara Tepe, lamenta o facto de estar retido em Lesvos há dois anos e refere estar cansado e muito preocupado com o seu futuro.

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Digital Learning Lab (sala onde decorrem as aulas de informática) no campo de refugiados de Kara Tepe
O meu nome é Ana Luísa Moreira, tenho 23 anos e sou de Guimarães. Licenciei-me em Psicologia pela Universidade Católica de Braga e, atualmente, frequento o 2º ano do Mestrado em Psicologia da Justiça e do Comportamento Desviante, na Universidade Católica do Porto. No âmbito da minha dissertação de mestrado, decidi dedicar-me ao estudo dos refugiados, por ser um tema que caiu em esquecimento, apesar de a crise se manter. Tive a oportunidade de recolher dados junto de refugiados na ilha de Lesvos, na Grécia, conhecê-los realmente e ter acesso à informação em primeira mão. Durante os dias em que lá estive, ainda tive oportunidade de fazer trabalho de voluntariado com crianças e jovens. Foi uma experiência de vida única e espero voltar como voluntária no final do mestrado. De Lesvos trouxe o coração cheio, muitos abraços, muitos pedidos de ajuda e mensagens de agradecimento. É isso que aqui partilho convosco.