A praxe!

Muito se escreve sobre as praxes académicas nos primeiros dois meses de cada novo ano escolar.

Muito se debate se deviam ou não existir, se deviam ou não ser aceites pelas instituições, se deviam ou não ser criadas leis que conseguissem terminar com estas tradições que, segundo uns, não passam de exercícios de poder dos mais velhos sobre os mais novos ou, na opinião de outros, são profícuos de momentos de integração em que os mais velhos ajudam os mais novos a adaptarem-se à nova realidade.
Nas cidades em que existe um pólo universitário ou outra instituição do ensino superior é quase impossível não assistirmos à passagem de grandes grupos de jovens estudantes, a percorrerem as ruas a cantar e a gritar. Algumas letras musicais mais interessantes do que outras, com mais imaginação, com mais piada, outras muito brejeiras que apenas demonstram a preguiça intelectual daqueles jovens “doutores ou engenheiros”.Mas enquanto andam pelas ruas a gritar, aproveitam para mostrar a cidade aos estudantes que vêm de outras zonas do país e que, ali, nada conhecem.

Sim, existem outras maneiras de mostrar a cidade, de indicar o supermercado mais barato, os CTT, o comércio tradicional e até o bar mais porreiro para os copos.

A praxe é contraditória.  Existem as músicas parolas e mesmo de mau gosto, existe também o andar de rastos, pular até cair de cansaço, correr com os pés presos àquela pessoa que não conhecem de lado nenhum. Existe o insulto gratuito, o abuso na brincadeira, deixam os caloiros molhados durante horas e tentam a toda a força embriagar os supostos miúdos acabados de sair de casa pela primeira vez. Mas há também a festa, a alegria de se ter chegado ali, o convívio, a amizade que fica para a vida.

Mas há também o lado negro, quando as coisas correm mal e chegam mesmo a morrer jovens na flor da idade quando ainda tinham uma vida toda pela frente. Isso não é praxe. É violência! Morrem porque alguém deles não soube parar. Os jovens que chegam admitem ser violentados para não serem excluídos, porque afinal as instituições de ensino não os receberam bem, não os protegeram logo no início do caminho, e, de facto nada fazem para os defender na hora da denúncia do abuso na praxe. Aceitam para não desistir.

Na minha opinião, as praxes não se proíbem por lei ou por multa. E a violência nas praxes, sem consequências para os abusadores, deixarão de existir quando ensinarmos os mais jovens a dizer não.

É importante saber dizer não, é importante ter um pensamento crítico e saber escolher o que queremos para nós independentemente da tribo a que pertencemos e a escola ainda não faz este trabalho. Os alunos ainda não são incentivados a saberem de cor e salteado os seus direitos enquanto cidadãos e por isso são permeáveis a bullying, a praxes violentas, a humilhações.

Mais, proibir as praxes dentro dos recintos universitários, significaria passá-las de um meio controlado para o descontrolo total. As praxes não deviam ter lugar à noite, porque alunos mais velhos e alunos mais novos deveriam aproveitar os espaços nocturnos para a socialização e divertimento. As praxes não deveriam ter lugar em locais bem longe da instituição à qual pertencem, porque a isso chamamos fim-de-semana com os amigos, para beber, comer e conversar (quem sabe namorar).

Entretanto, não esqueçamos que praxes deixarão de fazer sentido, num sistema de ensino que não seleccione os seus alunos pela capacidade financeira, porque só estudas se tiveres dinheiro para pagar propinas, só estudas se tiveres dinheiro para pagar um quarto mais as despesas, só estudas se tiveres dinheiro para os copos e discotecas nas noites académicas.

Quando o poder central descobrir que o investimento na educação é o caminho para um país desenvolvido e economicamente estável, as universidades vão-se encher de alunos críticos e que sabem bem o caminho que querem seguir. Nessa altura as praxes não farão sentido, todos serão recebidos de igual forma.

Mariana Silva, 36 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.