Diário em Lesvos: A luz ao fundo do barco

Agora com 17 anos, este jovem nasceu no Irão como refugiado, onde permaneceu durante 12 anos. Sob ameaça dos terroristas devido à profissão do pai, que era jornalista, mudou-se para o Afeganistão com a família. Três anos depois, novamente perseguidos, tomaram a decisão de fugir para a Europa. Foram para a Turquia, onde ficaram durante dois anos, uma vez que as fronteiras europeias já estavam fechadas. Ao fim de dois anos, embarcaram na travessia do Mediterrâneo, para chegar à ilha de Lesvos.

Recorda o medo e a hesitação da família no momento de entrar no barco. Refere ainda: “Já durante a viagem, vimos um barco com uma luz forte a aproximar-se. Pensámos que era a polícia turca e entrámos em pânico. Toda a gente gritava para irmos mais rápido. Quando o barco se aproximou, vimos a bandeira grega e toda a gente ficou feliz”. Quando chegaram, foram para o centro de detenção de Moria, onde viveram em péssimas condições: “Éramos três famílias numa tenda, quinze pessoas numa tenda.

Não conseguia dormir. Durante muito tempo, não dormia. A nossa tenda era num sítio muito perigoso, onde havia muita violência. Lembro-me de um dia acordar e os nossos sapatos estarem cheios de sangue, por causa das lutas da noite anterior.” Viveram em Moria durante um mês e meio, até serem transferidos para o campo de refugiados de Kara Tepe, onde vivem há cinco meses.

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Sessão das voluntárias portuguesas com o grupo de jovens no campo de refugiados de Kara Tepe.
O meu nome é Ana Luísa Moreira, tenho 23 anos e sou de Guimarães. Licenciei-me em Psicologia pela Universidade Católica de Braga e, atualmente, frequento o 2º ano do Mestrado em Psicologia da Justiça e do Comportamento Desviante, na Universidade Católica do Porto. No âmbito da minha dissertação de mestrado, decidi dedicar-me ao estudo dos refugiados, por ser um tema que caiu em esquecimento, apesar de a crise se manter. Tive a oportunidade de recolher dados junto de refugiados na ilha de Lesvos, na Grécia, conhecê-los realmente e ter acesso à informação em primeira mão. Durante os dias em que lá estive, ainda tive oportunidade de fazer trabalho de voluntariado com crianças e jovens. Foi uma experiência de vida única e espero voltar como voluntária no final do mestrado. De Lesvos trouxe o coração cheio, muitos abraços, muitos pedidos de ajuda e mensagens de agradecimento. É isso que aqui partilho convosco.