Diário em Lesvos: Apelo a Marcelo

Um casal curdo e os seus 4 filhos deixaram o Iraque para fugir à guerra. Foram para a Turquia, onde o pai foi detido pela polícia. Conta que lhe disseram para sair do território turco: “Volta para o Iraque ou vai para a Europa, mas tens de sair da Turquia”. Conseguiram um negócio com smugglers para irem até à ilha de Lesvos, na Grécia.

Quando chegaram, foram para o centro de detenção de Moria, onde viveram durante um mês. Recordam as más condições em que viviam, realçando que passaram muita fome, o que foi muito complicado, tendo em conta que tinham crianças pequenas. “Sempre que íamos para a fila da comida, havia conflitos”. Foram então transferidos para o campo de refugiados de Kara Tepe, onde vivem há um ano. Entretanto, tiveram mais uma filha e referem que, em Kara Tepe, receberam mais ajuda e melhor tratamento para a bebé do que recebiam no Iraque.

Aguardam com incerteza uma resposta acerca do futuro e aproveitam para deixar uma mensagem para o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa: “Somos uma família de 7 pessoas. Queremos viver em Portugal, porque lá temos muitos amigos. Só precisamos que nos deixem chegar até Portugal, porque depois os nossos amigos vão ajudar-nos a arranjar casa e emprego. Não queremos arranjar problemas. Só queremos poder viver num país seguro e com oportunidades para a nossa família”.

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Bandeira portuguesa protege uma janela de Kara Tepe dos raios solares.
O meu nome é Ana Luísa Moreira, tenho 23 anos e sou de Guimarães. Licenciei-me em Psicologia pela Universidade Católica de Braga e, atualmente, frequento o 2º ano do Mestrado em Psicologia da Justiça e do Comportamento Desviante, na Universidade Católica do Porto. No âmbito da minha dissertação de mestrado, decidi dedicar-me ao estudo dos refugiados, por ser um tema que caiu em esquecimento, apesar de a crise se manter. Tive a oportunidade de recolher dados junto de refugiados na ilha de Lesvos, na Grécia, conhecê-los realmente e ter acesso à informação em primeira mão. Durante os dias em que lá estive, ainda tive oportunidade de fazer trabalho de voluntariado com crianças e jovens. Foi uma experiência de vida única e espero voltar como voluntária no final do mestrado. De Lesvos trouxe o coração cheio, muitos abraços, muitos pedidos de ajuda e mensagens de agradecimento. É isso que aqui partilho convosco.