Diário em Lesvos: Por montes, mares e terra

Um casal sírio, oriundo da cidade de Palmyra, partiu em direção à Europa, com os três filhos, em abril deste ano. Referem que tinham uma vida fantástica. No entanto, quando começou a guerra, ficaram muito doentes e sentiam que os filhos mereciam uma vida melhor. Decidiram então procurar um futuro para a família na Europa. Deslocaram-se até à Turquia a pé, onde pagaram aos smugglers para irem até Lesvos num barco de borracha.

Durante a viagem, o barco rompeu e começou a afundar. Estiveram três horas no mar até receber ajuda. Quando chegaram à Grécia, foram levados para o centro de detenção de Moria, onde ficaram durante cerca de 40 dias. Recordam esse período de grandes dificuldades, mencionando a longa espera pela água e pela comida, as noites frias e o espaço limitado na tenda. Com o frio e a fraca qualidade da comida, os filhos estavam constantemente doentes.

Referem ainda que tiveram de passar noites na montanha, para proteger as crianças dos episódios constantes de violência. Atualmente, estão em Kara Tepe e gostavam de um dia viver na Suécia ou na Holanda.

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Uma das ruas de Kara Tepe. À esquerda, as zonas de entretenimento para as crianças. À direita, locais destinados à realização de atividades por parte dos voluntários.
O meu nome é Ana Luísa Moreira, tenho 23 anos e sou de Guimarães. Licenciei-me em Psicologia pela Universidade Católica de Braga e, atualmente, frequento o 2º ano do Mestrado em Psicologia da Justiça e do Comportamento Desviante, na Universidade Católica do Porto. No âmbito da minha dissertação de mestrado, decidi dedicar-me ao estudo dos refugiados, por ser um tema que caiu em esquecimento, apesar de a crise se manter. Tive a oportunidade de recolher dados junto de refugiados na ilha de Lesvos, na Grécia, conhecê-los realmente e ter acesso à informação em primeira mão. Durante os dias em que lá estive, ainda tive oportunidade de fazer trabalho de voluntariado com crianças e jovens. Foi uma experiência de vida única e espero voltar como voluntária no final do mestrado. De Lesvos trouxe o coração cheio, muitos abraços, muitos pedidos de ajuda e mensagens de agradecimento. É isso que aqui partilho convosco.