“Não se nasce mulher: torna-se”

Simone de Beauvoir escreveu “Não se nasce mulher: torna-se”.

Das pessoas que perdi, a minha avó paterna é aquela que mais vezes lembro. Dela herdei o primeiro nome, Emília, que me foi dado por ser minha madrinha, como era hábito naquele tempo. Prepararam-me para a modernidade e chamaram-me, desde logo, pelo segundo nome: Paula. Mas a formalidade das ocasiões faz com que com frequência respondo pelo nome da minha avó, como deve ser.

Nela bebi muitas das referências que conduziram a minha vida enquanto mulher. Aos oitos anos foi trabalhar e contam que manejava os teares de pé sobre um banco. Depois de casada ultrapassou a sua condição de operária à custa do seu caráter empreendedor. A minha avó Emília não sabia ler nem escrever, mas fazia contas como ninguém. A ela se conferem os créditos do pouco, ou muito, que a família conseguiu. O que, dado a época, é mais do que alguma vez conseguirei alcançar.

A Sremília, como era chamada, era temida pela freguesia e adorada por todos nós, família onde abundam as mulheres. Dela se recorda a atitude desafiadora e ousada que lhe permitiu realizar as suas vontades num tempo em que o marido tutelava os atos da esposa. Refere-se ainda que poderia ter ido mais longe não fosse o descuido ocasional nas decisões sem a prévia autorização do marido. Além da veia empreendedora e da personalidade forte, recorda-se o amor inesgotável pelo meu avô que alimentou uns ciúmes tontos até ao final da vida.

Imagino que com as suas características não tenha sido fácil conciliar a sua condição de mulher com a sua vontade. Dela, as muitas mulheres da família herdaram a ousadia de se tornarem mulheres quaisquer que fossem as escolhas.

Ao longo da minha vida, confesso que o mais difícil foi ser mulher. Pelo caráter e pelas opções, desafiei vezes sem contas os padrões mais comuns do lugar que me era reservado. Não fui a única que, à escala, ousou aparecer em lugares menos frequentados por mulheres jovens sem acompanhante masculino, na política, no associativismo ou simplesmente no lazer. Com o recente movimento #metoo, tenho partilhado que nunca me senti assediada apesar da dificuldade da caminhada e se conclui que tal não sucedeu, provavelmente, por um conjunto de razões: não fui ambiciosa e por isso não precisei de enfrentar nenhum poderoso, não tenho os predicados da mulher desejada e, finalmente, vivo num meio protegido. Em conversa de café, refere-se o medo imposto ao sexo oposto, o que facilmente se qualificaria de respeito, não fosse algum traço desviante em relação ao padrão comum da mulher.

Acontece que, suponho que como qualquer mulher, enfrentei os apalpões furtivos de qualquer tarado com ar repulsivo nas ruas, do Porto em particular, os comentários jocosos com o objetivo de atingir a minha pessoa no que tem ou não de necessidades sexuais, declarados ou velados de alguns confrades em contexto de reuniões políticas, nas atividades associativistas ou profissionais que selavam, normalmente, as questões na falta de melhor argumento. Nunca respondi, como gostaria de responder.

Na minha educação, como na de qualquer rapariga suponho eu, não faltaram avisos e recomendações sobre a postura da mulher respeitável, da forma como não dar sinais de facilidades às investidas sexuais dos homens. Mais ainda, que mesmo dizendo que não, pode parecer que sim.

Às minhas filhas tentei abrir as portas e disse-lhes que poderiam ser o que quisessem, mas também lembrei os eventuais perigos de se tornarem mulheres, na eventualidade de os tempos não corresponderem aos padrões da evolução educada como esperávamos. E é o momento em que me lembro que a minha avó fez mais no seu tempo do que nós desde então.

Com a maior das hipocrisias se levanta a voz contra um tal de Jair Bolsonaro, se alinha no movimento #EleNao e, com displicência, se aturam os abusos sexuais sobre as mulheres. Quando um juiz isenta de culpa um violador, não só o sistema judicial está errado, como toda a sociedade errou. E aqui está um sinal indelével de que nem tudo ficou resolvido em 25 de Abril.

#AssimNao

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.