Ainda o CIAJG e os Pecados da Direita

O modelo de gestão, o conteúdo artístico e as reflexões sobre a afluência ao Centro Internacional de Artes José de Guimarães (CIAJG) tem estado na ordem do dia. Na sua origem, está a reflexão pública feita pelo Presidente da Câmara acerca dos números de visitas ao Centro, e a necessidade de melhorar este item especificamente.

Para lá desta reflexão, Domingos Bragança já elogiou o trabalho que por ali se faz e a forma como o CIAJG já foi capaz de se afirmar na área da Arte Contemporânea pela programação que por lá passa.

Esta reflexão é, pois, apenas sobre os números de visitantes que todos gostaríamos que fossem superiores aos atuais. Para isso bastaria, por exemplo, que não fosse apenas do Município que saísse o esforço financeiro de uma aposta num Centro que é Nacional, resultante de uma Capital Europeia da Cultura e que, por essa via, está longe do apoio dado a Centro Cultural de Belém e Casa da Música. Exemplo esse que foi dado pelo próprio Presidente da Câmara na última inauguração do novo ciclo expositivo do CIAJG, no passado sábado.

Aproveitando esta reflexão pública, e como se dela se pudesse ler qualquer tipo de fragilidade, a direita vimaranense aproveitou para discorrer publicamente para disso tirar proveito político. Esquecem-se o quanto pecaram. De todas as formas que a sua fé professa: por pensamentos, palavras, atos e omissões.

Pecaram por pensamentos quando, ao longo de todo o processo de afirmação cultural de Guimarães no panorama europeu, foram adversários de projetos como Centro Cultural de Vila Flor. Mas também, e ao contrário do que agora querem fazer passar quando analisam a viabilidade do próprio edifício, quando defenderam que o seu projeto devia ser entregue a um arquiteto internacional de renome como Frank Gehry.

Pecam por pensamento, também, desde 2013, quando no programa eleitoral defendiam que uma parte substancial do valor do contrato programa da Oficina devia ser canalizado para apoiar associações. Defender um recuo da verba transferida para uma cooperativa que em 15 anos acrescentou Centro de Criação de Candoso, Casa da Memória e Plataforma das Artes à sua responsabilidade, é defender o definhamento destas políticas culturais que nos conduziram ao sucesso.

Pecaram por palavras quando, no mandato passado, uma deputada do PSD na Assembleia Municipal analisou a Plataforma das Artes sob a única perspetiva da sustentabilidade financeira e das contabilidades de números de entrada. Concluiu que a solução podia passar por fechar a Plataforma das Artes para pensar…

Pecaram por atos quando no último sábado, e depois de discorrerem publicamente sobre o tema, não compareceram à inauguração do novo ciclo expositivo do CIAJG. Não que seja novidade, dado que apenas por lá passaram em iguais circunstâncias em vésperas de eleições. Mas depois de tanta reflexão, era um ato de grande simbolismo que preferiram não dar.

Pecaram, por fim, por omissões. Por elogiarem o trabalho das associações, como alternativa ao trabalho do Município, omitindo que muitas dessas iniciativas são apoiadas logística e financeiramente na íntegra ou parcialmente pela Câmara Municipal, através do Regulamento Municipal de Entidades Culturais, Artísticas, Recreativas e Humanitárias (RMECARH).

Pecaram por analisarem o Contrato Programa da Oficina, lamentando que o mesmo se baseie em critérios financeiros e de números de público, omitindo que isto se deve à Lei 50/2012 que o Governo de Pedro Passos Coelho, Miguel Relvas e Paulo Portas criaram para colocar um garrote sobre as cooperativas municipais, e que podia mesmo ter levado ao fim da Oficina como a conhecemos.

Quando é dado um sinal de abertura para reflexão sobre um problema específico, numa estrutura que em diversas outras matérias é elogiada pelo mesmo Presidente de Câmara, a direita política vimaranense decide pecar para retirar dividendos políticos. Por sua culpa, sua tão grande culpa.

Paulo Lopes Silva, 30 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Líder parlamentar da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães, de que é membro desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.