O beijo da discórdia

Beijar, um acto que pode simbolizar tanta coisa! Quando dado com (con)sentimento e fruto de uma vontade reciproca, pode ser mágico (e até curar dói-dóis), verdade?

E também é verdade, que forçar um beijo, é das piores sensações que se pode ter. E ser beijado à força também. Lembro-me bem, do agora chamado bullying, quando andava na escola, e de, um dia, ter sido beijada á força por rapaz da minha turma. Portanto, sim, eu sei qual é a sensação. E também me lembro bem de ser obrigada pelos meus pais a beijar pessoas que não queria, e que nem conhecia. A sensação em qualquer uma destas situações é de raiva, repulsa, invasão, injustiça e medo. Medo do que possa acontecer se eu não compactuar, se não obedecer, se disser Não.

Esta é uma programação a que quase todos fomos submetidos enquanto crianças: o mais forte tem poder sobre o mais fraco. E isto acontece em todas as relações: parentais, amorosas, profissionais, de amizade, de género…E está tão impregnado na nossa sociedade, no nosso dia-a-dia, que já nem nos apercebemos. Ou estamos programados para isso: “faz parte da educação”; “ele é que traz dinheiro para casa”; “os patrões podem tudo”; “se não fizer isso, ele deixa de ser meu amigo”; “não ligues, os homens são mesmo assim”. Como se ser pai desse o direito de bater, desrespeitar, humilhar em nome da educação. Como se auferir o ordenado maior (ou o único) da casa desse o direito de exigir seja o que for da outra pessoa. Como se o facto de se pagar o ordenado a alguém desse o direito de o tratar como uma propriedade. Como se a amizade cobrasse algo que vai contra a integridade de alguém. Como se o género sexual fosse sinónimo de superioridade. Não dá, não cobra, não é.

É aqui que se quebram valores muito importantes para mim e para a parentalidade consciente: o respeito pela integridade das pessoas e o igual valor. Há uma tendência generalizada (inconsciente) para se considerar a criança como um ser inferior e menos merecedor, no fundo, com menos valor, no que toca à expressão e satisfação de desejos, necessidades e sentimentos. (Podes testar isto se te perguntares se consideras que o marido bater na mulher é violência doméstica, e o pai bater no filho, educação.)

Ouve-se muitas vezes na nossa sociedade frases como: “oh tu sabes lá o que queres”; “tu não mandas”; “tu não tens quereres”; “tens de comer porque tens fome”; “veste o casaco porque tens frio”; “eu é que sei”; “queres, queres”… Estas expressões são, na verdade, demonstrações de total desrespeito pelo ser humano a quem são dirigidas.

Sendo a crianças, torna-as ainda mais graves. Toda a gente sabe que as crianças são mais frágeis, indefesas, pequenas, imaturas, e, facilmente programáveis. E de quem é a responsabilidade de as fortalecer, defender, orientá-las no crescimento e amadurecimento, e programá-las através do exemplo pessoal? Dos pais.
Então qual é afinal a correlação entre beijar alguém e ser violentado? Assim de repente, nenhuma.

Claro que a correlação entre beijar alguém e ser violentado pode não existir, mas a correlação entre “obrigações”, imposições às crianças, desrespeito pela sua integridade (não só mas também) física, incluindo o obrigar a beijar alguém que a criança não quer beijar, e o adolescente e o adulto que se envolve em relações de poder, em que o mais forte pode obrigar o mais fraco a fazer coisas contra a sua vontade, existe

É fácil percebermos que isto é errado quando se trata de adultos. É fácil perceber que um adulto não pode ser obrigado a ter um momento de intimidade, ou ser obrigado por alguém a ter um momento íntimo contra a sua vontade. O beijo é ou não algo íntimo, utilizado para expressarmos o nosso afecto por alguém?

E porque é tão difícil perceber isto quando se trata de crianças? Porque não se percebe esta relação subtil entre uma criança que é obrigada a fazer certas coisas sem questionar, a obedecer sem contestar, e o adulto que é submisso e se deixa subjugar numa relação, no trabalho, com o grupo de pares? E, claro também há a criança que se transforma no adulto que subjuga o outro.

E se todos percebêssemos que tudo isto é programado quando somos crianças? Que há uma programação, imposta inconscientemente pelos pais, que promove esta submissão, através destes pequenos actos de imposição? Que é até parodoxal, pois muitas vezes estes são os pais que, simultaneamente passam mensagens como: “não deixes que abusem de ti”; “não permitas que te digam o deves fazer” e “dá já um beijinho à tua avó”; “se não deres um beijinho és feio” (Esta então tem um efeito duplamente avassalador. Como se a beleza de alguém dependesse do desrespeito pela sua integridade). Será que perceberíamos o efeito catastrófico que isto pode ter nas nossas crianças, jovens e adultos?

Eu, enquanto mãe, gosto de estar consciente disto. Gosto de me relembrar constantemente das minhas intenções enquanto mãe. E gosto de pensar que estou a fazer tudo ao meu alcance para realizar algumas delas: Vou esforçar-me para que as minhas filhas saibam defender-se, saibam dizer Não, quando algo vai contra a sua integridade. Que saibam dizer Sim, quando tiverem esse desejo e garra para o concretizar, apesar dos obstáculos. Que saibam que muitas vezes um Sim ao outro é um Não a nós próprios. Que podem dizer Sim e Não, apesar das consequências, e que estejam conscientes destas. Que beijem quem elas quiserem, se a outra pessoa quiser ser beijada. Que não beijem quem não quiserem e que não se permitam ser beijadas por quem não querem. Que podem dizer Não e está tudo bem. Que saibam a diferença entre educação e domesticação. Que respeitem o outro e o seu Sim e Não, e sobretudo, que se respeitem a elas próprias, e que saibam que são o que há de mais valioso na vida delas.

Sónia Lopes, 35 anos, é Psicóloga Clínica, Hipnoterapeuta, Coach e facilitadora de Parentalidade Consciente. Fundadora do SeMente – Centro de Desenvolvimento Pessoal, sempre se dedicou ao desenvolvimento pessoal (seu e dos outros) e hoje abraça a mais desafiante profissão de todas: ser mãe. Irá partilhar connosco a sua visão acerca da Parentalidade.