Desculpe, Senhora Ministra, importa-se de repetir? Uma questão de civilização?!

O inverno chegou. E não, não é uma constatação meteorológica e muito menos térmica. É, infelizmente, outra coisa. É a confirmação dos piores receios de Ned Stark, que morreu traído por aqueles que, precisamente, quis salvar do inverno que aí vinha e que, por estarem mais preocupados com o seu próprio umbigo e em impor o seu modo de vida e o seu poder, acabarão a sucumbir com ele. Só que desta vez não é ficção de Westeros. É, preocupantemente, a realidade de Portugal.

Sim, chegou a Portugal o obscurantismo, aquilo que achávamos ter abolido há muitos anos e que dávamos por certo não existir mais em Portugal. E, pior, pela mão daqueles que se arrogaram sempre ser os mais democratas, os mais iluminados, os mais civilizados. Mas afinal não, os inquisidores e as suas fogueiras voltaram e, assustem-se que o caso é para tanto, mandam e não mandam sozinhos!

Falo, já se vê, do triste episódio de terça-feira à tarde, ocorrido – pasme-se – no centro nevrálgico da democracia portuguesa e protagonizado pela recém-empossada Ministra da Cultura. Qual Cersei Lannister (em menos formosa), a uma pergunta minha a respeito da reposição do IVA da cultura em 6% para todas as manifestações culturais, em que, evidentemente, se incluía a tauromaquia (como sempre se incluiu), a Senhor Ministra respondeu que o IVA dos espectáculos tauromáquicos não ia ser reposto por uma questão de civilização! Desculpe, Senhora Ministra, importa-se de repetir? Uma questão de civilização?!

Não, Senhora Ministra, não é uma questão de civilização! É preconceito, é discriminação, é ditadura do gosto! E a Ministra da Cultura é a última pessoa a poder impor o seu gosto. Se não apenas por uma questão constitucional e democrática – só por si muito grave – também pelo número de pessoas que sufraga o gosto de parte deste Governo e de alguma da sua maioria. É que, juntos, PS, Bloco de Esquerda e PAN têm pouco mais de 2 milhões de votos. Já às touradas assistem, todos os anos, mais de 3 milhões de pessoas (o PCP não entra nesta equação porque ainda tem a sensatez de, nesta matéria, não impor o seu gosto, sendo certo que, mesmo que somássemos os seus votos, não chegaríamos aos três milhões). Dá que pensar, não dá, Senhora Ministra?

Imagine que estes 3 milhões de pessoas queriam impor o seu gosto e acabar de vez com as preferências de Vª. Exª? Eu seria a primeira a levantar-me contra e a impedi-lo, e a dizer-lhes que a Senhora Ministra tem direito a gostar do que quiser, a fazer o que lhe apetecer, a assistir aos espectáculos culturais que entender. É assim em democracia, Senhora Ministra! Não há manifestações culturais mais ou menos civilizadas, mais ou menos boas, mais ou menos atendíveis. São todas manifestações culturais, para todos os gostos, para todas as preferências, para todas as vontades. E todas, sem excepção, merecem igual respeito e igual tratamento.

É assim, Senhora Ministra, que se começam as ditaduras, as ditaduras contra as quais lutámos todos e contra as quais, deste lado, continuaremos a lutar, sob pena de, na tentativa de impormos os nossos gostos e as nossas preferências, aniquilando as dos outros, perecermos todos.

Não é a primeira vez que, pela mão de BE e PAN, discutimos o fim da tauromaquia em Portugal. E, sempre, sempre, sem sucesso. Ainda há dias o Parlamento rejeitou, esmagadoramente, mais uma tentativa de a proibir. Esta via tortuosa que o Governo encontrou para satisfazer os caprichos dos seus parceiros não só é inconstitucional e ilegal, como esbarra frontalmente na vontade da maioria dos portugueses, inclusivamente da que compõe o PS. Mas o que é ainda mais reprovável neste comportamento, é que não tendo conseguido proibir a tauromaquia, a Senhora Ministra está disposta a exercer o seu poder para, ao arrepio da Constituição da República Portuguesa, discriminar aquilo de que não gosta.

De resto, Senhora Ministra, percebo que não goste de touradas. Não a censuro. Eu também não gosto de fado. Duas tradições portuguesas que lutarei ao fim por manter intocáveis e em que espero ver o Governo português empenhado em salvaguardar e promover.

Vânia Dias da Silva, 40 anos, residente em Guimarães, jurista, Deputada à AR eleita pelo círculo eleitoral de Braga nas listas do CDS-PP. Membro da Comissão de Assuntos Constitucionais, Direitos, Liberdades e Garantias e da Comissão de Cultura. Vogal da Comissão Política Nacional do CDS-PP.