DEMOCRACIA E INFORMAÇÃO III

As rádios locais significaram uma verdadeira revolução na imprensa vimaranense, a todos os níveis, face à inovação que significaram e ás imensas mudanças que introduziram na forma de fazer informação.

Recordemos que Guimarães, como muitos outros concelhos do país, não possuía jornais diários (ainda hoje não os tem e previsivelmente nunca os terá) pelo que a informação veiculada pela comunicação social era de cariz semanal e portanto muitas das notícias quando chegavam aos leitores já estavam completamente desactualizadas.

Por outro lado , numa dimensão global, havia apenas um canal de televisão (RTP) e as rádios nacionais existentes nessa década de oitenta (Antena 1,Comercial,Renascença,etc) raramente davam a Guimarães mais atenção do que aquela que resultava dos jogos do Vitória e de uma ou outra visita de governantes ao concelho.

Para lá disso…nada!

Ou quase.

O aparecimento das rádios locais, em meados dos anos oitenta, foi de facto uma autêntica revolução e significou um virar de página na comunicação local que nunca mais teve retrocesso possível.

A primeira a surgir foi a Rádio Fundação.

Algures, creio não estar enganado, por 1984 e com o seus primeiros estúdios a funcionarem no sotão do C.A.R. na rua de Santa Luzia num espaço extremamente acanhado mas minimamente funcional e que rapidamente ganhou uma audiência extraordinária porque as pessoas em Guimarães e na região passaram a ter um meio de comunicação onde diariamente e de hora a hora podiam ouvir notícias locais relativamente actualizadas.

Mas não só notícias.

Ouviam pessoas conhecidas, participavam em concursos, telefonavam para os programas e, cereja em cima do bolo, ouviam relatos do Vitória, entrevistas com jogadores, treinadores e dirigentes,em suma, furavam por completo o bloqueio informativo de décadas.

Não foi fácil a aceitação,contudo, nalguns meios dessa nova realidade.

Nomeadamente nos meios políticos onde o frenesim da informação diária, as reportagens e entrevistas, os telefonemas dos cidadãos a queixarem-se disto e daquilo causou alguma estranheza e desconfiança a quem estava habituado ao ritmo da informação semanal.

De seguida veio a (para mim e mais alguns) saudosa Rádio Guimarães.

Fundada por algumas pessoas que tinham saído da Rádio Fundação e por outras que não tinham nunca estado ligadas à comunicação social a Rádio Guimarães teve os seus primeiros

(e praticamente últimos) estúdios numas arrecadações pertencentes à Associação de Moradores da Amorosa num prédio da Urbanização de Nossa Senhora da Conceição.

Foram tempos épicos.

Onde faltava quase tudo, mas quase tudo se inventava para suprir as faltas, porque uma rádio local sem financiadores e praticamente sem publicidade nos seus primeiros tempos tinha de facto de ter uma enorme capacidade de improviso para conseguir funcionar de forma regular e com um minímo de qualidade.

E isso foi conseguido.

Através de uma geração de jovens talentosos, profundamente empenhados no que faziam, contando com uma direcção que fazia o possível e o impossível para que dentro dos parcos recursos nada faltasse.

Fizeram-se grandes momentos de rádio.

Programas, entrevistas, reportagens e esses momentos únicos que eram os relatos dos jogos do Vitória no meio de um autêntico estendal de improvisos técnicos e de alguma “lata” no acesso aos estádios e na contratação de linhas.

Foram uns largos meses em que ouso dizer que se terá feito da melhor rádio que alguma vez Guimarães conheceu.

Posteriormente surgiria a Rádio Santiago.

Cujo primeiro nome, que não vingou, foi Rádio Tropical e que iniciou as suas emissões nuns estúdios situados na rua capitão Alfredo Guimarães num pequeno centro comercial que ainda lá existe.

Fundada por pessoas que tinham saído da Rádio Guimarães, e curiosamente algumas também tinha fundado a Guimarães vindas da Fundação, rapidamente passou para instalações na Praça de Santiago (onde esteve longos anos) depois de ter sido adquirida pela Sociedade Santiago.

Guimarães tinha assim três rádios em funcionamento concorrendo para a disputa dos dois alvarás que se se sabia iam ser concedidos a Guimarães.

A Rádio Fundação, de longe a mais ouvida e mais bem equipada, já a emitir a partir dos estúdios da Rua Gil Vicente onde tinha instalações que em nada ficavam a dever a uma rádio nacional.

A Rádio Guimarães, já fragilizada por divisões e dissidências, que se tinha mudado para uns estúdios mais modernos na Avenida de Londres mas em clara perda de audiências e sem grandes (nem pequenas) influências ao nível de quem decidiria os alvarás.

E a Rádio Santiago, ao tempo provavelmente a menos ouvida, mas que tinha inegável influência em vários meios e um projecto cuja qualidade terá pesado na decisão final.

Foram legalizadas a Fundação e a Santiago.

Um novo capítulo se abria na Comunicação Social vimaranense.

(Continua)

Leia os artigos anteriores aqui e aqui.

Luís Cirilo Carvalho, 58 anos, já liderou a concelhia do partido e foi deputado à Assembleia da República 1999 e 2005 na bancada social-democrata. Foi governador civil entre 2002 e 2003. Passou pelo Vitória Sport Clube como dirigente.
Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.