Nicolinas, tradições e associações…

Recentemente estreou uma novela que, no seu genérico, usa alguns nicolinos a tocar o que se supõe ser um toque nicolino ao qual se sobrepõe uma música bastante popular mas que em nada se relaciona com as festas e tradições Nicolinas. Contudo a questão de fundo não está na música. A pergunta que devemos fazer é a seguinte: o que é que os nicolinos foram fazer às gravações de uma novela? E a essa pergunta, que podemos fazer hoje relativamente à telenovela, é legítimo acrescentar outras: o que é que os nicolinos foram fazer há tempos ao Estádio D. Afonso Henriques? Porque é que agora é comum ver os nicolinos  nas ruas em pleno Verão? Resumindo: qual é a necessidade de os nicolinos fazerem qualquer tipo de demonstração ou actuação fora do contexto das Nicolinas?
Será que as Nicolinas  e os nicolinos podem ou devem caminhar para um modelo semelhante ao dos ranchos folclóricos? Isto é, passam a actuar por convite em qualquer altura do ano?
Tenho muito respeito pelas diversas associações Nicolinas e pelas pessoas que delas fazem parte. Não posso deixar de reconhecer, louvar e agradecer o esforço que, a vários níveis, fazem pelas festas Nicolinas, pela sua manutenção, pelo seu estudo e pela sua continuidade. Ainda assim creio que a descontextualização das festas é o pior ataque que se pode fazer a uma tradição que, como todas as outras tradições – e, já agora, tudo que o Homem constrói – é por si só frágil e mutável, apresentando ao longo dos séculos diversas variações, evoluções,  mantendo-se, contudo, dentro de um determinado contexto que, neste caso, segundo creio, será evidente para todos. Vou tentar ser um pouco mais claro: daquilo que sabemos até agora, as “Nicolinas” são festas dos estudantes que se realizam por altura do dia de S. Nicolau. Tudo o resto é uma mera representação sem sentido e sem contexto.
Posto isto deixo uma outra questão (recorrente nesta altura do ano): qual é o futuro das Nicolinas, outrora designadas apenas como festas de S. Nicolau? Será a manutenção das suas práticas e números? Será a sua evolução? Será a cristalização apenas de certos números? Será a introdução de novos usos e costumes nas festas (como aliás foi recorrente ao longo dos últimos 4 séculos)?
Termino estas perguntas sem fazer a mínima ideia sobre quem está habilitado para as responder e sem saber quem tem legitimidade para representar os nicolinos. Reparem que a cada 10 anos são “produzidos” pelas escolas secundárias do concelho de Guimarães cerca de 30 000 a 40 000 novos “velhos nicolinos”. A estes juntam-se muitos milhares de alunos que frequentaram o ensino secundário em Guimarães nos últimos 100 anos. Deste universo muitos já morreram, outros não querem saber das Nicolinas para nada, outros reduzem as festas à noite do Pinheiro, etc.
Ainda assim, no dia em que quiserem discutir estas questões com quem tem legitimidade para o fazer – com todos os nicolinos – sugiro que reservem o Estádio D. Afonso Henriques, embora esteja convencido que nem meia bancada será ocupada, pois poucos são os que se interessam verdadeiramente sobre o assunto…

—-

Uma nota sobre o Convívio. Como vimaranense e como frequentador daquela associação e dos eventos por ela programados espero que o Convívio consiga chegar a um acordo com o seu novo proprietário e que, dessa ou de outra forma, fique no seu actual espaço. Contudo não contem comigo para diabolizar nem o antigo nem o actual proprietário. Não é por aí que o Convívio vai fazer valer os seus interesses e o seu ponto de vista. Espero que a sensibilidade e o bom senso das partes envolvidas nesta questão prevaleça e que o Convívio possa ficar na sua sede, continuando assim a desenvolver o notável trabalho em prol da cultura vimaranense que sempre pautou a sua actividade.
Fica ainda um alerta para outras associações que se encontram em situação semelhante e para a Câmara Municipal de Guimarães: é sempre melhor agir do que reagir. As associações que não são proprietárias dos imóveis onde têm a sua sede social devem acautelar o seu futuro, adquirindo os imóveis ou obtendo classificações que impeçam o seu despejo ou aumentos de renda desmesurados. Já a Câmara deverá ficar mais atenta e exercer o seu direito de preferência quando verificar que o futuro de instituições e associações relevantes está em perigo.
Fica por fim uma pergunta: porque é que na questão do Convívio a Câmara optou por dotar aquela associação com 150 000 euros em vez de exercer o direito de preferência que claramente tinha? Não poderia tê-lo feito cedendo o espaço ao Convívio, mantendo a dotação de 150 000 euros e negociando depois com a associação uma renda ou uma outra forma de abater a dívida remanescente?

Francisco Brito (Guimarães, 1983). Licenciado em História pela Universidade do Minho. Investigador do CITCEM (com interesse em história política, social e militar). Livreiro alfarrabista.