TEMOS PLANO?

Queria dedicar estas primeiras linhas a agradecer, ao projeto Duas Caras e à sua impulsionadora – Catarina Castro Abreu – o convite que me fizeram para partilhar estas simples linhas e pensamentos com esta gazeta vimaranense e todos os seus leitores.

Foram recentemente aprovadas – com os votos contra dos vereadores eleitos pelo PSD e CDS – as Grandes Opções do Plano e Orçamento para 2019. O documento que foi apresentado para análise, entre gralhas e imprecisões, assentava em três objetivos centrais:

  • Sustentabilidade Ambiental
  • “Guimarães Cidade Exemplo em Portugal, na Europa e no Mundo”
  • Coesão Territorial

Há um tique muito socialista de enorme excitação com quaisquer feitos da gestão municipal logo seguido de crítica mordaz a quem cometa o sacrilégio de com eles não se excitar. Embora se compreenda (e até respeite) a função dos arautos e pregoeiros na passagem e difusão da mensagem, convém recordar o leitor que o Orçamento para 2019 é de 105 milhões de euros. Repito: 105 milhões de euros!

Ou seja, é suposto que quem tem para gerir e gastar – anualmente – uma maquia tão elevada, faça alguma coisa com o nosso dinheiro. E mais: faça coisas boas! É suposto, é natural e é até expectável que assim seja. Isto só é razão para tamanha excitação e auto-proclamação em sociedades sem ambição e com as expectativas tão em baixo que qualquer feito nos enche a alma. Penso, numa abordagem de perspetiva mais social, que devemos ser mais exigentes connosco próprios.

Regressando ao Orçamento e às suas linhas ou vetores essenciais de desenvolvimento, mais do que analisar o que o Orçamento a elas reserva (que é em boa verdade propagandístico), interessa analisar que metas tem Guimarães atingido nestes que são os grandes objetivos de quem nos gere. Porque analisar uma vez mais o que nos prometem fazer, faz-nos por vezes perder de vista o que efetivamente foi feito. É por isso importante não perder de vista as políticas concretas que, para lá do espetáculo, estão efetivamente realizadas.

Vejamos:

Na área da sustentabilidade ambiental (objetivo que de há muito acompanha este executivo), deixo algumas perguntas:

  • É conhecida alguma medida ou iniciativa concreta de despoluição do rio Ave e restantes rios que atravessam o nosso concelho? Uma só!

Para além das brigadas verdes sempre exibidas como grande medida despoluidora que iniciativas com vista à sua despoluição foram efetivamente tomadas em todos estes anos? E resultados? Estamos a acompanhar os resultados?

  • E o rio de Couros, que atravessa cidade tantas vezes nauseabundo e cuja nascente ocorre apenas a escassos metros da cidade, em plena Montanha da Penha?

Com tantos anos de dedicação ambiental e tantos projetos megalómanos de recuperação de todo o seu curso (foi apresentado há cerca de três anos, mas já ninguém se lembra disso) e ainda não houve tempo que uma coisa tão simples de identificação e resolução dos seus (poucos) pontos de poluição

  • E a promoção de medidas de locomoção alternativas ao automóvel? Isto, claro, para além de termos visto o Presidente de Câmara a fotografar-se ao lado de uma bicicleta.

Guimarães gastou milhões em ciclovias que, sendo importantes, são vias de cicloturismo e não com vista ao uso da bicicleta como alternativa ao automóvel.

  • E o incentivo à poupança energética das famílias? Que medidas? Que iniciativas? Que propostas?

Nada. E de facto, não basta hastear a bandeira verde e declarar os vimaranenses ecocidadãos para acharmos que está mesmo a ser levada a sério esta preocupação.

Depois o magnânime propósito de Guimarães Cidade Exemplo em Portugal, na Europa e no Mundo. Que, além do que encerra, na realidade se reduz ao objetivo de tornar Guimarães uma Cidade Universitária e “fomentadora de relações dos nossos residentes com outros mundos, desenvolvendo o cosmopolitismo”. Objetivo com que, também, todos concordamos. Mas, pergunto-me:

  • Para quem tem como objetivo tornar Guimarães numa Cidade Universitária tem acompanhado a evolução da distribuição dos alunos da Universidade do Minho entre os seus pólos de Braga e Guimarães? Ela tem revelado uma aproximação ou afastamento?
  • Tem acompanhado a criação de novos cursos e sua distribuição pelos pólos de Braga e Guimarães?
  • E quanto às “relações com residentes de outros mundos”, presumindo não se tratar de marcianos, o que está a ser feito em concreto? Ao nível dos intercâmbios? Ao nível do programa Erasmus? A medida para incentivar “relações com residentes de outros mundos” é a construção da outrora Residência de Artista agora Residência de Investigadores?? Por favor….

Esta é uma área onde há muito para fazer. Mas onde nada se anuncia. Só o propósito, o objetivo, quase um  devir. E coisas concretas? Não importa, nós gostamos mais de anúncios do que de concretizações e assim lá vamos “cantando e rindo”.

Por último, a coesão territorial. Algo de que o PS, no poder há 30 anos em Guimarães, se deveria envergonhar, por ter a gestão mais concentrada e centralista da nossa região. Como falar em coesão territorial como uma marca da gestão municipal socialista quando:

  • Temos os piores transportes públicos do norte do País, quiçá do pais inteiro, numa perspetiva de utilizador-pagador, que não chegam a lado nenhum, deixam boa parte do território isolado (sobretudo ao fim de semana) e no qual a Câmara não investe um tostão
  • Apesar de sermos uma cidade com apenas 55.000 habitantes somos a terceira cidade com pior trânsito no País, logo a seguir a Lisboa e Porto. É pior ir às Taipas ou a Moreira de Cónegos do que ir de Guimarães ao Porto
  • Temos um dos concelhos mais centralistas do País, que menos confia nas suas freguesias e nos seus eleitos locais, não lhes transferindo competências nem verbas para além do estritamente necessário

Mas de que coesão territorial estamos a falar? É mesmo para levar a sério?

É por tudo isto, por todo este entretenimento em que gostamos que nos anunciem coisas e nos desligamos da sua execução que cognominei o Presidente de Câmara como “Domingos Bragança, O Anunciador”.

Por todas as que enunciei e por outras que, só à guisa de curiosidade, posso deixar também:

  • Circular Urbana
  • Via de acesso ao AvePark (amplamente discutido no início do último mandato)
  • Teatro Jordão/Garagem Avenida (este já vai para o terceiro mandato)
  • Desnivelamento da rotunda de acesso à auto-estrada em Silvares (a arrastar desde 2005)
  • Intervenção no Parque da Mumadona para permitir acessibilidade a cidadãos com mobilidade reduzida
  • Criação de novas zonas industriais
  • Propostas de intervenção apresentadas em cada uma das reuniões descentralizadas
  • Frota dos TUG 100% elétrica
  • E até o Tramway para Braga….

E podia continuar mas, por fastidioso e por não querer que me retirem já a confiança para escrever neste espaço, logo após a primeira experiência, vou-me ficar por aqui. Para já.

André Coelho Lima é advogado e vereador do PSD eleito pela Coligação Juntos por Guimarães. Integra a comissão política nacional do PSD.