Cuidado com os embrulhos bonitos

Não. A crónica de hoje não é sobre o Natal que aí está à porta. Até poderia ser, já que o Município apresenta no próximo sábado o programa “Guimarães, Cidade Natal”. Mas não é. É sobre os embrulhos bonitos que trazem presentes menos agradáveis.

No passado fim-de-semana, li no jornal Público uma entrevista com o novo guru da direita mundial. Instado por bons amigos da sua área política a conhecer melhor o seu trabalho, aproveitei esta oportunidade para tentar perceber o fenómeno.

Jordan Peterson, de seu nome, aparece rotulado de Professor de Psicologia de uma qualquer universidade da América do Norte, e é com essa aura que emana correção científica e respeitabilidade. Mesmo que o escrito que mais vezes cita seja esse clássico da ciência, a Bíblia.

Este psicólogo dedica grande parte da sua vida, atualmente, a propagar uma mensagem que vem embrulhada na “busca da felicidade” e acaba por se tornar num baluarte do politicamente incorreto, anti-tudo-o-que-seja feminismo ou LGBT, entre outros.

Embrulha em elogios à mulher e à dificuldade em combater a “sua natural ascensão”, a pretensão de não criar qualquer tipo de mecanismo que crie igualdade para um género que há “meia-dúzia de anos” não votava.

Embrulha em aceitação plena do casamento homossexual pela via da concordância ou da omissão opinativa dos detratores, uma vontade de apagar um discurso que gere direitos iguais para uma minoria que ainda hoje é espancada e violada pelo mundo fora.

Embrulha em verdades universais cientificamente aceites, dogmas por si criados, como este: “Os estudos mostram que as diferenças entre homens e mulheres aumentam à medida que as sociedades se tornam mais ricas e têm mais igualdade de género.”

Na questão da igualdade de género, a título também de exemplo, usa a mais velha técnica da demagogia. Pressupõe a intenção daqueles de quem está em desacordo, para a seguir a desconstruir:

“Vamos definir: o que queremos é que em todas as profissões estejam representados todos os grupos, de acordo com a sua prevalência na população. Isso seria o ideal. Então temos dezenas de nichos e todos têm de ser preenchidos respeitando os grupos identitários. Quais? O sexo, a etnia, a idade, o grupo socioeconómico, a atratividade, o temperamento, a inteligência, a deficiência… Portanto, podemos duplicar o número de grupos sem limite e, de cada vez que acrescentamos um, vamos aumentar a complexidade do processo, o que levaria à criação de uma burocracia maciça.”

Não, Dr. Peterson. O que queremos é que as pessoas possam escolher a profissão que mais as realiza. E no final do dia receberem o mesmo, quer sejam homens, quer sejam mulheres. Mas não é isso que acontece.

Enfim, preparem-se porque vem aí o Natal. E por muito que vos queiram entregar um presente com um embrulho muito bonitinho, não se deixem enganar, pois a caixa pode estar (como neste caso) vazia ou cheia de enganos.

Paulo Lopes Silva, 30 anos, é Adjunto para a Cultura da Vice-Presidente da Câmara de Guimarães. Líder parlamentar da bancada do Partido Socialista na Assembleia Municipal de Guimarães, de que é membro desde 2009, ano em que foi candidato a presidente da Junta de Freguesia de São Sebastião. Licenciado em Engenharia Informática e Mestre em Engenharia de Sistemas pela Universidade do Minho. Foi Diretor Nacional de Organização do Partido Socialista entre 2011 e 2014.