TEMPO DE NICOLINAS

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É impossível fugir a este tema, quando escrevo no dia a seguir ao “Pinheiro”, a noite mais longa de Guimarães. “Pinheiro” que, como mastro anunciador, indica o início dos festejos a São Nicolau.

Isto, apesar de ter sido tema recorrente em colunas de opinião nos últimos dias. Mas vou tentar fugir ao registo heróico-descritivo ou à tentativa de uso do registo de humor, um registo sempre difícil porque só ao alcance dos intelectualmente mais capazes.

Na verdade, para além da época ser propícia ao tema, ele está também – e mais uma vez – na ordem do dia por causa da suposta, alegada, eventual, proto candidatura das Festas Nicolinas de Guimarães a Património Cultural Imaterial da Humanidade, de acordo com classificação da UNESCO.

Está-o porque no próximo dia 13-dezembro, teremos a enésima apresentação do estudo que subjaz à intenção de candidatura. O que decorrerá no dia 13-dezembro, no âmbito da conferência “Em Concreto” será, segundo se diz nos documentos de apresentação, a “apresentação do estudo antropológico por Jean-Yves Durand”.

Estamos expectantes. Mas confusos. Porque no dia 21.03.2014 (já há quatro anos, portanto) teve lugar, na Plataforma das Artes e da Criatividade, a “apresentação final do Estudo Antropológico sobre as Festas Nicolinas” (sublinhado meu). Ou seja, agora, quatro anos depois, terá lugar a mesma apresentação (mas agora sem o “final”) que havia sido já efetuada em 2014. Confuso? Também eu.

A verdade é que o antropólogo Jean-Yves Durand foi objeto de contratação de serviços pelo Município de Guimarães no dia 02.06.2011. Não se justifica que estejamos, até esta data, sete longos anos depois, ainda a fazer a apresentação o “estudo antropológico” que já apresentamos há quatro anos atrás… se for coisa diferente, expliquem-se para tentarmos perceber do que se trata.

A verdade é que isto é uma novela que se arrasta há tempo demais (e novela é coisa que deixa o mundo nicolino com urticária…). De tal modo que, com a apresentação pioneira do Fado – imediata e celeremente aceite pela UNESCO – e depois do Cante Alentejano, a quantidade imensa de intenções de candidatura a Património Cultural Imaterial que quase todos os dias nos entram pelos jornais e televisões, alguns das coisas mais ridículas, fazem a comunidade Nicolina – com toda a justificação – sentir a sua festa apoucada se comparada com algumas das intenções que são conhecidas (é só ver o catálogo nacional) o que deve apenas e só à morosidade do processo de candidatura que foi de uma lentidão tal que desconfio que o próprio Matusalém (se ainda fosse vivo) não iria viver anos suficientes para poder ver esta intenção de candidatura a vir a ser uma realidade.

E o que é lamentável é recordar que quando esta intenção de candidatura foi apresentada em Assembleia Municipal (sessão de 15.12.2005), subscrita e aprovada por todas as forças partidárias com assento naquele órgão em Guimarães, a Convenção de Paris que cria o Património Cultural Imaterial não estava sequer ainda em vigor em Portugal… teve que ser a Assembleia Municipal de Guimarães, a propósito da intenção de candidatura das Nicolinas, a provocar a ratificação pela Assembleia da República desta Convenção da UNESCO, para que pudéssemos candidatar a nossa festa.

De então para cá, já foram aprovadas várias candidaturas nacionais (como o Fado e o Cante Alentejano, já referidos), apresentada mais uma resma de intenções de candidatura, e a das Festas Nicolinas anda de apresentação de estudo em apresentação de estudo, entretida a tentar esgotar a paciência das instituições nicolinas que, em 2006, se mostraram favoráveis a este caminho. Se o objetivo for esse, levar os nicolinos e suas instituições a mudar de opinião, então é preciso dizer que tem sido de um enorme sucesso!

nota: convido interessados e também os mais pacientes, se munidos daquela paciência que biblicamente apresentou Jó (mas sem ter que passar pelas suas provações) a consultarem este extenso relato cronológico de todos os passos desta intenção de candidatura, existente no site da Associação dos Antigos Estudantes do Liceu de Guimarães / Velhos Nicolinos, desde o longínquo ano de 2005: http://www.nicolinos.pt/s/90

André Coelho Lima é advogado e vereador do PSD eleito pela Coligação Juntos por Guimarães. Integra a comissão política nacional do PSD.