Começou o mês mais bonito do ano

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Começou o mês mais bonito do ano, este ano mais iluminado que os demais. É provável que as luzes de Natal da cidade se acendam cada vez mais cedo, para gáudio dos turistas e da população local. É fácil deixar-se apanhar pelo ambiente, neste caso em especial. A mensagem é das mais eficazes e negociáveis. Entra-se num ambiente de bondade e amor ao próximo sem contrapartida, salvo todo o volume de negócios que a campanha fará gerar até ao final do mês de dezembro. Mas quem não gosta do Natal?

Dezembro obriga-nos à bondade ou a pensar nela. Cada um se aplica na experiência. No intervalo de um mês, pomo-nos no lugar de alguém, exercitamos a empatia. O que não é pouco, considerando que, por norma, delegamos para outras entidades, entre as quais o Estado, a responsabilidade social, mas não só.

No que respeita ao que divide o bem do mal, conceitos mutáveis, com se tem visto, também se remete para o establishment. Afinal, somos seres sociais, e, enquanto tal recorremos à religião, à ideologia política, ao grupo social de pertença ou simples opinion makers. Pensa-se, então, colocar em cestos diferentes o bem, o mal e o assim-assim que depende do imediato, dos intervenientes, da disposição, do dinheiro, das expectativas e outros fatores, que são muitos, emergentes de todos os canais de comunicação e relações. O que a ser verdade tornaria a vida mais simples.

Quando se trata de agir, dizem algumas vozes que para tal existe o Estado, outras que a cada um segundo o seu mérito. A esquerda e a direita resolvem a distribuição ou ainda as igrejas de quaisquer confissões. Num plano mais quotidiano, o sistema justifica, ou não, a ação. Neste registo encontramos aqueles que sobrevivem, uns melhores do que outros, às irregularidades. Estes ganham dimensão de verdadeiros heróis da habilidade que, normalmente, se mede em ganhos monetários subtraídos às malhas da legalidade e aos outros.

Ontem, num jantar de beneficência, ouvi, em discurso, alguém deixar claro que ao Estado cabia sempre em primeiro plano a tarefa de suprir as carências sociais. Seria tão bom se assim fosse, sem consequências: eliminar a pobreza, eliminando a caridade.

Não obstante, no mesmo jantar, pude verificar a maior atenção dos participantes no momento em que a instituição de cariz social decidiu prestar contas e apresentar as suas atividades e os resultados das intervenções. O facto é surpreendente por se tratar, ao mesmo tempo, de um momento e espaço de convívio festivo. Mas a seriedade do momento foi assumida por todos sem equívocos, o que leva a constatar a necessidade de comprometimento individual com as causas sociais.

O mês de dezembro é de facto o mês mais bonito do ano. Nesta altura, dinheiros à parte, tenho fé que cada um, em algum momento é aquilo que nos liga à humanidade: um ser empático.

Paula Magalhães, licenciada em Ciências Económicas e Empresariais, contabilista, professora e formadora para as áreas de formação de Economia e Contabilidade, foi, entre outras intervenções políticas, deputada municipal na Assembleia Municipal de Guimarães, colaborou na redação do jornal O Povo de Guimarães, desde 1989 até ao seu desaparecimento, foi ainda diretora e presidente da direção da cooperativa, já extinta, O Povo de Guimarães, CRL.