Francisco Sá Carneiro

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Para quem não teve o privilégio de ser contemporâneo de um líder inspirador como Francisco Sá Carneiro, perfilhar o ideal da social democracia faz do dia 4 de Dezembro um passeio tranquilo pelo tão rico memorial de tão curta passagem.

Tendo crescido a ouvir falar dele em casa com a emoção de quem, como muitos portugueses, se sentiu tocado por aquilo que Sá Carneiro representou num momento muito particular da nossa história, era inevitável o encontro com o seu legado.

É nesse passeio que encontro a esperança na sua visão, a profundidade dos seus princípios e valores, o foco na pessoa humana enquanto centro da acção política, o seu carisma, o realismo da análise e a coragem de enfrentar estigmas políticos e sociais.

Não vou estender-me nos episódios. Mas destaco o seu papel e o de outros democratas que aceitaram integrar listas da União Nacional para, por dentro do regime, intervirem activamente na defesa de um Portugal democrático.

Relevantíssimo serviço à democracia portuguesa, à cidadania e à história política de Portugal presta o Instituto Francisco Sá Carneiro (https://www.institutosacarneiro.pt). Que disponibiliza online uma miríade de documentos que preservam o legado e permitem um melhor conhecimento desta figura indelével da nossa história, Primeiro-Ministro falecido no exercício de funções. (Que tal circunstância não tenha motivado cabal explicação até aos dias de hoje julgo dizer muito daquilo em que nos tornamos enquanto país.)

Mas apesar do entusiasmo que gerou à sua volta, consensual não é adjectivo que lhe sirva. Muitas vezes só, viveu momentos da mais extrema agitação social, política e partidária tendo ficado com um grupo parlamentar de 36 deputados depois da ruptura interna com outros 37 deputados que, eleitos pelo PSD, passaram à condição de independentes. Apesar do clima hostil no partido não investiu na guerra interna mas na defesa do que entendia ser certo para o país. Guiado pela força das suas convicções, assente na coerência de princípios e valores, vence as eleições com maioria absoluta na famosa Aliança Democrática.

Contra ventos e marés, foi a clareza, a esperança e o realismo da visão para Portugal que motivou a adesão das pessoas ao projecto político que liderava.

A Social Democracia continua a ser um caminho adequado para o desenvolvimento civilizacional na matriz social, económica, cultural e histórica que enforma Portugal. Tendo defendido que o futuro de Portugal passava obrigatoriamente pela Europa, tendo aberto a porta à existência de televisões privadas, tendo defendido um regime económico mais liberal e menos estatizado, defendendo a iniciativa privada e impedindo o crescimento de radicalismos, a Social Democracia prosperou com Sá Carneiro em Portugal e levou prosperidade aos países que a abraçaram por tempo suficiente.

Uma Social Democracia forjada no Humanismo, no Reformismo e na Solidariedade tem hoje tanto sentido como no passado. E tem casa no PSD.

Porque a Social Democracia não pode ser hoje reivindicada pelo Partido Socialista apenas porque o Partido Social Democrata, em determinado momento, se viu forçado a cumprir uma checklist de obrigações governativas impostas por uma troika dominada por liberais, triste resultado da crónica incapacidade do socialismo de governar a longo prazo.

Ao morrer nas eleições de 2011, salvou-se o PS. Ao contrário de outros, não ter que vergar um milímetro no cumprimento de um programa de governo contrário à sua matriz ideológica, permitiu ocupar de forma cobarde e interesseira um espaço político que lhe garantiu a sobrevivência. Aliado hoje a forças essencialmente anti-democráticas, o PS não pode nunca ser herdeiro da Social Democracia.

Os sacrifícios impostos pela criminosa governação socialista que culminaram com a chegada da troika foram muitas vezes mitigados precisamente pela persistência da visão Social Democrata: no alargamento da isenção de taxas moderadoras, no descongelamento de pensões, na diminuição da dívida brutal do Serviço Nacional de Saíde, na implementação de um programa de emergência social e em tantas outras acções políticas concretas que em tempo de emergência financeira nacional impediram uma ainda maior crise social.

Cumprida mais uma missão patriótica, a Social Democracia deve voltar aos seus fundamentais para perceber que são admissíveis variações ideológicas em momentos de emergência nacional. E que a defesa dessa missão patriótica num momento não impede o regresso à essência da ideologia depois.

Num momento em que se assiste de forma impressionante à falência funcional do Estado – na Saúde, nos Transportes, na Justiça, etc.  – Portugal precisa de uma Social Democracia à imagem de Sá Carneiro: focada nos seus princípios e à frente no seu tempo.

Para ter o apoio dos cidadãos, use um discurso verdadeiro na exposição dos erros que atrasam Portugal e decidido nas alternativas sérias para uma vida melhor dos Portugueses.

Como estou em crer que Sá Carneiro faria.

Alexandre Barros Cunha, 34 anos, engenheiro civil de formação abraçou a gestão de operações por vocação. Tendo liderado a JSD em Guimarães e no distrito, é hoje deputado municipal, vice-presidente do PSD Guimarães e membro do Conselho Nacional do PSD.