Parentalidade: o certo e o errado

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No início da nossa jornada, e ainda só com uma filha, eu e o meu marido conversávamos acerca do que é certo e errado na parentalidade. Dizia-me ele que ser pai (e mãe) é das tarefas mais escrutinadas que há, pelos outros e por nós próprios. Que fica cada vez mais com a ideia que, contrariamente até àquilo que advogamos, ou é advogado como sendo o melhor para as crianças, tentamos ter tudo perfeitamente controlado, definido, distribuído entre o que está bem e o que está mal, o que deve, ou não, ser feito.

E eu dizia que a ideia é estarmos conscientes das possibilidades e definirmos o que (achamos que) é melhor para nós e para a nossa filha, e claro que no dia-a-dia não dá para controlar tudo, nem é essa a intenção.
A verdade é que, entre isso e tudo o resto, vai uma distância muito ténue.

Ou seja, facilmente passamos disso para um cenário em que só nos sentimos bem a controlar tudo e todos que giram à nossa volta; a pensar e avaliar o que fazemos e dizemos e como fazemos e dizemos (e o que os outros dizem e fazem e como dizem e fazem), para que, em fim de linha: tudo seja o mais natural possível para a criança.

Estamos perante um grande desafio paradoxal, portanto.

(Invariavelmente tudo o que é dito ou feito tem falhas porque se quisermos, há sempre a possibilidade de melhorar, e, no limite, também estamos o mais longe possível da atitude natural, do deixar fluir.)

Um erro, que deve ser aceite por cada um de nós como normal e que podemos e devemos confiar que não se mantém e se corrige naturalmente, passa a ser algo perpétuo:

“Se fizeres isto, o teu filho vai ser assim”; “se não fizeres assim, o teu filho não vai conseguir fazer isto”; é assim que as coisas nos são colocadas hoje em dia, e muito raramente de outra forma. São identificados comportamentos aconselháveis ou erróneos com impacto directo no desenvolvimento dos teus filhos, quase todos irreparáveis.

Será mesmo assim? Serão todas as nossas decisões definitivas? Nós nunca desistimos de algo ou mudamos de opinião acerca de alguma coisa? Porque não o podemos fazer então com os nossos filhos? Quantos de nós já não desistiram de idas ao ginásio? Mudaram de opinião em relação ao que vestir? Quantas vezes dissemos nunca mais vou comer chocolate e nem 24h depois já tínhamos quebrado a promessa? Quantos de nós somos imperfeitos? Todos. E porque exigimos a perfeição dos nossos filhos?

Chegamos à conclusão que devemos, e queremos, ultrapassar a cultura do medo do erro que nos é imposta como se cada erro nosso (ou algo eventualmente classificável como tal), fosse o culpado pelo futuro sucesso ou insucesso da(s) nossa(s) filha(s)! E ultrapassar a tendência em querer definir apenas um caminho possível para fazer as coisas bem, e que todas as alternativas são más.

Porque insistimos tanto na coerência, muitas vezes à custa da congruência? Ser congruente é sentir o que digo, e fazer o que sinto e digo. Ser coerente é ser consistente; é fazer o que disse que ia fazer porque foi o que transmiti e assumi, mesmo que por vezes, esteja a fazer algo contrário àquilo que sinto no momento, só porque acho que devo impor regras por exemplo. Se sou congruente, posso mudar de opinião, posso até fazer o oposto a que me propus fazer, se isso contribuir para uma melhor relação com as minhas filhas.

Sou o mais autêntica possível, mesmo (diria especialmente) quando estou mais vulnerável. E sei que sou mais congruente quando estou consciente das minhas intenções enquanto mãe.
E sei, também, que erro muito, todos os dias, às vezes mais do que uma vez por dia. E também sei que faz parte, que está tudo bem. E que desta forma tomo consciência de onde estou e para onde quero ir, se estou ou não alinhada com as minhas intenções. E que é com o meu (nosso) exemplo que ensino o bom senso e a congruência às minhas filhas.
Fica o convite, nesta época de Natal experimenta estar mais consciente se é realmente importante seres sempre coerente.

Sónia Lopes, 35 anos, é Psicóloga Clínica, Hipnoterapeuta, Coach e facilitadora de Parentalidade Consciente. Fundadora do SeMente – Centro de Desenvolvimento Pessoal, sempre se dedicou ao desenvolvimento pessoal (seu e dos outros) e hoje abraça a mais desafiante profissão de todas: ser mãe. Irá partilhar connosco a sua visão acerca da Parentalidade.