O BAIRRISMO

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Bairristas somos nós,
Ninguém vai entender
Todos a uma só voz
Vitória vais vencer

Começo com um excerto de um cântico das claques do Vitória. Porque o Vitória é uma das expressões maiores do vimaranensismo e no Vitória se manifesta, também, a forma do ser vimaranense. Um excerto onde se revela aquilo que queremos exibir de nós próprios e aquilo que queremos que os outros percebam de nós. Esta frase refere-se, por isso, aos vitorianos, podendo referir-se, naturalmente, aos vimaranenses. É mais sobre esta vertente que me pretendo debruçar.

Guimarães foi, desde sempre, conhecida e reconhecida como terra de grande fervor bairrista. E isso nada tem que ver com a nossa História recente, onde até escasseiam os episódios desta natureza. Essa circunstância manifesta-se em várias passagens da nossa História, como a da provocação do Dom Prior da Colegiada ao Arcebispo de Braga e das Hespanhas ficando a igreja de Guimarães desde aí sufragânea de São Latrão ao invés de responder à hierarquia arciprestal portuguesa (para não ter que passar pelo Arcebispado de Braga). Ou como a revolta de 28 de novembro de 1885 (um dia antes do Pinheiro) em que o Conde de Margaride, procurador da Junta de Guimarães, liderou uma revolta para que Guimarães abandonasse o distrito de Braga integrando-se no do Porto, tendo-se conseguido para Guimarães uma administração modelada pelo município de Lisboa, de modo a que se não pagasse qualquer quantia para o distrito acabando com a tutela de Braga sobre a Câmara e as paróquias do concelho de Guimarães. Ou ainda a da reconstrução da Praça de Touros de Guimarães em apenas 3 dias, que ocorreu em 1947 para a realização das touradas incluídas no programa das Gualterianas após o incêndio que ia pôr em causa a sua realização, o que ficou celebrizado num livro mandado publicar pela Câmara de Guimarães como “o milagre do bairrismo vimaranense”.

Por tudo isto, Jorge Sampaio, numa das expressões mais felizes que se nos aplicaram, própria de um espírito culto, elevado e instruído, referiu que em Guimarães se sentia o “Patriotismo de Cidade”. Bonita expressão. Mas, apesar do sentido que estas simples linhas levam, o que pretendo fazer é precisamente o inverso do que pode aparentar.

O que pretendo é refletir acerca da medida em que este nosso bairrismo não é, ao invés, precisamente um dos maiores condicionadores da nossa da nossa ambição, da nossa apreciação relativa, do nosso crescimento. Este bairrismo, quando acrítico e irrefletido, leva que pensemos que tudo o que é nosso é bom, donde, tudo o que é dos outros é mau. Isto impede, desde logo, que sejamos capazes de nos comparar com outras terras, outros povos, outras formas de gerir o território. Isto leva a que, no discurso político, seja altamente desaconselhável usar-se o exemplo de outros concelhos onde se vive melhor do que no nosso apenas porque, nos recusamos a ouvir, não gostamos que nos digam. Porque nós somos os melhores. O resto que se lixe. Isto é distintivo e caracterizador, mas se for acrítico pode transformar-se numa exibição pitoresca em alamente negativa porque nos recusamos a que o conhecimento do próximo, o empirismo, o benchmarking, nos auxiliem no traçar dos nossos projetos de comunidade.

Esta é uma matéria tabú. Daquelas que se diz em surdina e à boca pequena, mas não se assume. Pois eu estou a fazê-lo! Quero poder tentar contribuir para a reflexão coletiva que, creio, todos devemos fazer, enquanto povo. Em que medida é que a nossa maior virtude não é ao mesmo tempo o nosso maior defeito? Em que medida é que a nossa principal característica não é ao mesmo tempo o espartilho de pensamento e evolução?

Devo dizer que nem sequer o faço originariamente. Uma das coisas boas que têm as redes sociais é permitirem que acompanhemos o pensamento de indivíduos, cidadãos, que são em minha opinião verdadeiros intelectuais, embora não tenham sido ungidos pela sociedade como podendo ser vistos enquanto tal. Esta sociedade de aparências só permite a alguns atingir essa categoria, e então são-no, ainda que digam apenas disparates, vacuidades e redundâncias. Para se ser intelectual não é obrigatório ter-se cursado filosofia, ser-se de esquerda ou ser assíduo numa das associações da cidade que os costuma albergar.

E eu leio com muito interesse as coisas que alguns pensadores escrevem, destemidamente, sobre esta matéria. E o primeiro que sobre li, de forma completamente desabrida, foi o Ricardo Couto. Um vimaranense. Não sei se o establishment o considera um intelectual, eu considero. Como aliás o foram, ao longo dos séculos, aqueles que se dedicavam ao pensamento antes de haver cursos e universidades que nos “ensinassem” a pensar (será melhor dito que nos condicionassem o pensamento). E ele, apesar de num registo irónico e marcadamente jocoso, muitas vezes de um vernáculo intenso e com escritos de conteúdo sexual agressivo, vai deixando passar os seus pensamentos, de clara contestação ao nosso bairrismo, não por ser contra ele mas por considerar que ele nos limita e condiciona. Aqui há uns tempos ele tinha de terminar os seus pensamentos com a frase com “Somos únicos. Tamo junto. Braga é Merda.” Que é uma forma irónica, desafiadora, provocadora, de nos pôr a pensar… será que não isto não nos tolhe?

Pela minha parte, como vimaranense de coração que nunca deixarei de ser, penso que um contributo que poderei dar à minha terra é participar e, humildemente, procurar amplificar este desafio para uma reflexão coletiva. Com coragem, porque não é fácil pegar em temas tabú onde há sempre o risco de hara-kiri (que também nos lembra o Filipovic). Mas de que adianta andarmos na causa pública se for para nos limitarmos ao politicamente correto? De que adianta expormo-nos e darmos a cara se não for para contribuir com o melhor que temos, o melhor que pensamos e o melhor que sabemos, para a melhoria da nossa terra.

Gosto de desafiar convenções. Até porque, noutra dimensão, também acho que o conservadorismo da nossa sociedade nos impede que possamos dar o melhor de nós, nos impede que sejamos nós mesmo, nos impede que possamos assumir os nossos gostos, os nossos desejos, as nossas ambições, só porque podem não ser bem compreendidas pelo atavismo que nos rodeia. Por isso e muito adequadamente, vou terminar com uma citação de um pequeno texto que eu próprio escrevi para o Boletim Paroquial das paróquias da Cidade:

Mesmo numa terra de tradições como é Guimarães, a esperança é sempre feita de futuro. O futuro é a mola propulsora dos novos amanhãs. Winston Churchill dizia que “um povo sem passado não tem futuro”. Mas uma terra, uma família, uma comunidade, um povo, não pode viver agarrado ao passado. O futuro pode fazer-se de passado, mas não pode haver futuro sem termos a vontade de o viver, de a ele nos lançarmos sem temores, sem receios. Porque a única coisa que nos pode acontecer é podermos vencer, o que nunca acontecerá se nem tampouco o tentarmos”.

Já agora… Bom Natal a todos!

André Coelho Lima é advogado e vereador do PSD eleito pela Coligação Juntos por Guimarães. Integra a comissão política nacional do PSD.