Trindade Coelho

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Depois de falar de Abel Salazar, cabe a vez, agora, de Trindade Coelho. Uma das grandes figuras da cultura portuguesa. Ele foi o maior combatente voluntário contra o analfabetismo em Portugal.

Trindade Coelho (1861-1908), jurista e escritor, trasmontano, do Mogadouro. Fundador de vários jornais e revistas, com grande conteúdo cultural. Os livros mais importantes, talvez tenham sido: “Manual Político do Cidadão Português” e o “ABC do Povo”. Estes e outros livros, para além das revistas, tinha como objetivo tirar os portugueses do analfabetismo genérico e político.

Dizia ele: “Como é que um povo com tanta ignorância de vária ordem pode desenvolver um país?” Do “grande armazém cultural” que foi a geração 70, já poucos restavam. Trindade Coelho; Guerra Junqueiro e Teófilo Braga – mais tarde António Sérgio; Jaime Cortesão – e poucos mais, tentaram colocar a cultura na ordem do dia, já no tempo da Primeira República e não tiveram sucesso.

Pois, tal como no tempo da monarquia, as instituições político-económicas e religiosas não queriam um povo culto; porque um povo culto é mais difícil de governar, dirigir, controlar, cacicar, evangelizar e explorar economicamente.

Voltando a Trindade Coelho – ele e outros intelectuais em finais do século XIX, visitavam muitas vezes Paris, para se encontrarem com intelectuais franceses progressistas. Os franceses eram críticos a Portugal, pelo seu atraso, obscurantismo, analfabetismo, etc. Esta crítica entristecia Trindade Coelho e, por sua iniciativa económica resolve investir em literatura pedagógica, que servia o ensino escolar e não só – mandou editar as suas obras e distribuir por todas as livrarias do País, pagando a armazenagem, para serem distribuídos às pessoas gratuitamente. As obras bem elaboradas e com rigor científico. Mesmo sendo gratuitas, pouca gente lhe pegava.

A Trindade Coelho ninguém o podia acusar de influenciar esta ou aquela ideologia, nunca ninguém lhe conheceu ideologia alguma. A intenção dele era despertar, no ensino oficial e fora dele, o gosto pela aprendizagem, no sentido de combater o analfabetismo e a ignorância.

Em vez de ter o apoio das instituições do poder e religiosas, ainda era criticado e acusado de querer substituir-se ao governo – “vejam bem” –!

Trindade Coelho sentiu-se bloqueado no seu combate ao atraso de um povo, que não o merecia. Desabafava junto dos seus amigos: “somos um povo de ignorantes por opção” (será que não o somos ainda?). Triste e desgostoso, entendeu que já não tinha mais nada a fazer na sociedade, suicidando-se em 1908.

O mesmo já tinha acontecido antes com José Fontana e Antero de Quental, aproximadamente pelos mesmos motivos.

Não querendo um povo culto para melhor o explorar em todos os sentidos – os seus responsáveis deveriam responder como se fosse um crime contra a humanidade!

António Alvão, Reformado e militante da luta não abandonada.