A turbulência na Europa

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A instabilidade política e social na Europa tem vindo a instalar-se, em crescendo, em vários países, assumindo já sinais preocupantes em vários deles. À desestabilização resultante da denominada primavera árabe, originária da migração em massa dos refugiados da guerra, juntaram-se as consequências das alterações climáticas, para além da instabilidade política de outros países do Magreb e do Médio Oriente, flagelados por guerras intestinas.

Na sequência destes fenómenos, a política de acolhimento da União Europeia resultou em divisões nos países que a integram, bem desde o início de tais movimentos migratórios. Alguns países assumiram desde logo uma postura não consonante com os valores humanistas que estão na génese da fundação da União. Esta, face à capacidade política e financeira dos seus países membros mais a leste, permitiu que a hostilidade que estes revelaram em relação aos compromissos assumidos, não tivesse uma resposta dissuasora que a União tinha a obrigação (e os meios) de impor-lhes. Perante isto, as populações de países que aceitaram o acolhimento de refugiados passaram a ser menos tolerantes com o fenómeno, dando sinais de desconforto, e até de revolta, face à sua dimensão.

O evidente mal-estar, mesmo no seio das populações inicialmente acolhedoras, deu origem ao aparecimento de movimentos xenófobos que ouviram o apelo de partidos populistas que hoje já governam, ou cultivam apoio para governar, em países que foram marcantes para a estabilidade da Europa do pós-guerra.

As populações residentes sentindo o seu “mundo” ameaçado por “invasões” de refugiados passaram a ver nos líderes populistas a solução, porventura ilusória e falsa, para todos os seus problemas. A verdade é que, ainda há muito pouco tempo, estávamos longe de imaginar uma transformação tão célere como aquela que assumiram uma larga franja das populações de países como a Hungria, a Finlândia, a Áustria e muitos outros do coração da velha Europa.

De tudo o que hoje a Europa e, particularmente, a União Europeia vive e nos mostra, assenta também numa altamente burocratizada política, que fragiliza a classe média e as classes sociais mais frágeis e desfavorecidas, deixando sem perspetiva de futuro, perante a incerteza do presente, legiões de jovens que, em desespero, se revoltam contra o perverso modelo de distribuição de riqueza que a União Europeia ferozmente cultiva. Os seus líderes comprazem-se em ser fortes com os pobres e fracos com os ricos.

Precisamente no dia em que escrevo este despretensioso texto está anunciada em França uma ação popular contra o aumento dos combustíveis a que o governo daquele país não deu grande importância, apesar das medidas securitárias que tomou. Vê-se, agora, como aliás era previsível, que o protesto tomou tal dimensão e relevância que poderá vir a ter como consequência a queda de E. Macron. Verifica-se, então, o que agita tudo o que um movimento de cidadãos desenraizados das suas origens e sem perspetiva de futuro envolve dezenas de milhares de jovens. Estes saem à liça e provocam o caos nas sociedades organizadas, segundo o conceito que vigora nas mesmas há décadas e que, hoje, não resistem a este cataclismo social.

O que se passou recentemente em Espanha, na província da Andaluzia, significa que o movimento contamina e, porventura, chegará às periferias do nosso continente. Há apenas alguns meses era impensável que um partido extremista de direita poderia ser o fiel da balança de uma região governada ininterruptamente por maiorias da social-democracia. A verdade é que tal se verificou, na sequência de eleições democráticas, sem dúvida, obrigando os líderes a repensar o que se impõe corrigir para que os cidadãos confiram, de novo, aos democratas a legitimidade de os governar.

Finalmente, o que se passa em Portugal também não augura nada de bom. A solução real de um conjunto de problemas sociais já não basta para se conseguir uma pacificação social e laboral que os vários setores da sociedade desmentem. Quem pensa que a agitação que se sente em vários setores do mundo do trabalho tem apenas a ver com as eleições que se avizinham que se desengane. O mal-estar é mais profundo e mexe particularmente com aqueles que elegemos, que laxistas, fora da vida real, ou sectários, não são capazes de interiorizar que as populações estão cansadas de escândalos que envolvem aqueles que têm o dever ético de uma conduta de vida exemplar. Falta fineza de caráter a uns quantos, prudência a outros e, sobretudo, verdade e compostura republicana, não prescindindo dos seus ideais e dos seus valores políticos, mas cultivando-os com transparência e verdade, que a vida democrática a todos, sem exceção, exige.

Os ventos agitados que sopram na e da Europa chegarão até nós, se os nossos representantes não assumirem uma conduta política e pessoal pautada pela ética, pela verdade, pelo rigor e transparência. A democracia exige-o. Os cidadãos assim o exigem.

Bom Natal!

 

Guimarães, 20 de dezembro de 2018

António Magalhães