Portugal como um bacalhau e Nicolau como um peru.

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Serve este título propositadamente extravagante para falar de uma forma leve do nosso país e das Festas Nicolinas. Atendendo ao espírito da quadra, conto que os nossos maiores que outrora verteram sangue em defesa de Portugal me perdoem a comparação e que São Nicolau não se aborreça com o tratamento pouco formal com que o presenteei no título deste artigo.

Comecemos pela aparentemente descabida comparação entre Portugal e um bacalhau. Ou melhor, entre Portugal e a escolha de um bom bacalhau. Há uns anos atrás uma Senhora muito sabedora de coisas de cozinha (e não só) ensinou-me como se devia escolher um bom bacalhau. A técnica é simples e consiste apenas em agarrar o peixe um pouco abaixo das badanas para ver se ele se mantém firme ou se, depois de abanado, fica dobrado. Para perceber se este novo “Portugal restaurado” pela geringonça se irá manter firme teremos que esperar para ver como o Governo aguenta os abanões que vai recebendo dos seus aliados e inimigos no Parlamento, dos professores, dos enfermeiros, dos médicos, dos bombeiros, dos estivadores, dos coletes amarelos, das vítimas das mais variadas calamidades, dos guardas prisionais e de um sem número de classes profissionais que vão abanando o bacalhau, uns para ver se ele é bom (e se dali sairá uma boa posta para a sua mesa), outros para ver se ele não se aguenta ou mostra sinais de ser de fraca qualidade. Não sei se hoje existem cidadãos (no sentido de indivíduos que agem dentro de um quadro de direitos e deveres públicos e do interesse geral do seu país) ou se há apenas “sindicalistas-eleitores” ou “profissionais-eleitores” (gente que vota unicamente em função daquilo que, num dado momento, é oferecido à sua classe profissional). Mas é certo que, cada vez mais, uma eleição é uma compra feita sector a sector, de acordo com o orçamento disponível e com as variáveis do costume. Não pense o leitor que o estou a culpar por olhar pela sua carteira, longe disso. Afinal é a sua carteira que alimenta, para além da sua família, uma máquina gigantesca, pouco funcional e que gera demasiados desperdícios a que comumente chamamos Governo ou Estado…Uma máquina distante, cada vez mais distante, que na verdade não representa ninguém (criando uma cidadania sem cidadãos), o que abre o caminho para a já clássica barganha da obtenção de votos em troca de benefícios imediatos, transformando o cidadão num simples eleitor-consumidor.

O equilíbrio que um Governo (seja de que cor for) tem que fazer para satisfazer o profissional que vota e a clientela do costume é enorme e é caríssimo. Neste cenário todo o cuidado é pouco pois por melhor aspecto que o bacalhau tenha, se for servido sem ser testado poderá causar grandes dissabores a todos os convivas…

Passando à segunda parte do artigo começo por explicar a relação entre São Nicolau e um peru (de Natal, claro). A explicação é simples e faz-se recordando aos leitores a forma bárbara como se preparara um peru para a morte uns dias antes do Natal. Antes de ser morto um bom peru de Natal deve ser previamente embebedado por duas grandes razões fundamentais: primeiro porque um peru adormecido é mais facilmente morto e segundo porque a ingestão de álcool por uma ave em quantidades inimagináveis dá um sabor diferente (para melhor) à carne que piedosamente é servida no dia 25 de Dezembro ao almoço. Faço aqui um aparte para dizer que espero que esta prática atroz acabe (de preferência depois de eu morrer).
Um dos temas em destaque nos jornais desta semana foram precisamente os perus nicolinos. Isto é a relação do álcool com as festas Nicolinas.

Serve este introito disparatado para falar de um assunto sério que foi a apresentação do estudo “As Festas Nicolinas, em Guimarães: tempo, solenidade e riso”, coordenado pelo Professor Jean-Yves Durand. É sem margem para dúvidas o mais completo estudo feito até hoje sobre a matéria pois, sem descurar a História, trata as Nicolinas de um ponto de vista antropológico, focando-se muito nas diversas práticas actuais associadas às festas que, para muitos, são quase desconhecidas (nas diversas dimensões em que o estudo as aborda e enquadra). Estão por isso todos os seus autores de parabéns.

Pelo que li no estudo, de acordo com as últimas directivas da UNESCO, o carácter “excecional” das manifestações festivas (ou de outras) já não é hoje um critério que facilite a inscrição das Nicolinas como Património Imaterial da Humanidade. Contudo, como velho nicolino, tenho uma enorme curiosidade em perceber o porquê destas festas a São Nicolau (com todas as suas mutações, sempre tradicionais em manifestações seculares ou milenares) terem sobrevivido apenas em Guimarães quando desapareceram em grande parte da Europa e em Portugal (por volta do século XVIII terão desaparecido em França, Itália, Espanha, em grande parte das Universidades e Colégios ingleses; em Portugal, em Braga, no Porto, em Coimbra em Lisboa, etc, foram desaparecendo em alturas diferentes). Naturalmente, pelo que foi dito anteriormente, não caberia a este estudo analisar este fenómeno, mas creio que é algo tentador para qualquer investigador que se interesse por estas matérias.

Apesar da riqueza e diversidade do estudo, uma das questões que mais destaque teve na imprensa foi o alerta contido no estudo sobre o consumo excessivo de álcool nas festas Nicolinas e dos problemas que tal facto poderá trazer junto da UNESCO. Confesso ter algumas reservas quanto a esta preocupação apontada pelo estudo. São referidas as praxes da Comissão (que apesar de ser muito importante na organização das festas é composta por poucos elementos numa festa feita por milhares de pessoas), são referidos os internamentos hospitalares por consumo excessivo de álcool no dia do Pinheiro (umas dezenas de pessoas em milhares de participantes) e outros argumentos relativos às festas e aos preceitos da UNESCO.

O meu cepticismo quanto a este eventual problema  é fruto da enorme tolerância que a UNESCO tem mostrado relativamente a outras festas em que se cometem grandes excessos, como por exemplo no Carnaval de Oruro (na Bolívia), Património da Humanidade. Para além de certas bizarrias que envolvem animais (que por estarmos numa quadra que pede alguma contenção abstenho-me de contar), este Carnaval tem sido nos últimos anos palco dos mais inenarráveis excessos sem que a UNESCO lhes retire a distinção (situação que penso que está prevista pela UNESCO, caso não se cumpram certos critérios). Desde sacrilégios motivados pelo consumo excessivo de álcool, passando por “performers” em coma alcoólico, ou situações gravíssimas em “los ánimos se exacerban con el excesivo consumo de alcohol, lo que deriva en accidentes de tránsito o en crímenes contra personas”, podemos encontrar de tudo neste histórico Carnaval que tem uma longa tradição dos mais variados e inadmissíveis excessos…

Para além deste Carnaval há outras celebrações inscritas na UNESCO onde se verificam excessos idênticos aos que acontecem nas Nicolinas pelo que seria necessária uma grande dualidade de critérios por parte da UNESCO para excluir as Nicolinas por dúzia e meia de “perus”…

Termino este artigo desejando a todos os leitores os votos de um Feliz Natal de e de um excelente Ano Novo.

Francisco Brito (Guimarães, 1983). Licenciado em História pela Universidade do Minho. Investigador do CITCEM (com interesse em história política, social e militar). Livreiro alfarrabista.