2019 à espreita!

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No dia 31 de Dezembro perto da meia-noite subimos para cima da cadeira com as 12 passas bem contadas guardadas na palma da mão. Desejamos numa voz surda e inquieta saúde, trabalho, dinheiro, amor, felicidade para nós, para os nossos, para todos.

À meia-noite fazemos as pazes com 2018 e tudo o que correu menos bem fica esquecido e agarramo-nos aos dias frescos do novo ano. Tudo vai melhorar e correr bem. Fazemos promessas a nós mesmos que em 2019 muita coisa vai mudar e que o Mundo vai pular como a bola colorida nas mãos de uma criança.

2019 reserva-nos muitas lutas, muitas reflexões, muitas participações cívicas, muita atenção e sobretudo muita cooperação.

Não podemos ignorar que à nossa volta surgem mudanças, mesmo que “algumas coisas sejam só ditas da boca para fora”. As falsas notícias são encaradas com leveza em vez de serem combatidas, elas servem propósitos e por isso vão-se mantendo entre nós. Não podemos ignorar que apareçam sempre os mesmos nos canais generalistas e nos programas noticiosos, nos jornais e rádios locais, mesmo que outros façam muito trabalho, e procurem ser sempre transparentes, porque existe um propósito. Não podemos esquecer que apesar de se fazerem propostas, de se apontar o dedo, de se ser a voz daqueles que em nós confiaram e confiam somos acusados de estar sempre do contra e de nunca estarmos satisfeitos. Não podemos esquecer que a cor da pele de cada ser humano está novamente transformada em pretexto para uma onda de ódio e de repulsa que se pretende instalar e crescer.

Não nos podemos esquecer que a mudança para pior está à espreita, à espera que a maioria se distraia, se deixe levar pelas frases feitas cheias de ódio e racismo e preconceito.

Não são palavras ditas da “boca para fora”, são palavras que transportam um retrocesso na entrada de 2019. A violência doméstica não diminui, muito pelo contrário, continuamos a olhar para o lado porque entre “homem e mulher não se mete a colher”. O desporto ainda não é para todos, por muito que queiramos acreditar que só não tem acesso quem não quer. A saúde não é para todos por muito que alguns exijam médico de família para todos. A educação em escolas onde chove quase tanto como na rua, onde as janelas já não abrem e as luzes estão permanentemente acesas, onde não há dinheiro para o aquecimento. A justiça é cara, está atrasada porque faltam funcionários, e fica longe da maior parte da população que se agrava com a falta de transportes públicos em todo o país.

Os serviços públicos degradam-se para serem vendidos aos privados, por meia dúzia de tostões, mas que depois lhes dão milhões. Milhões sempre entregues aos mesmos, os poucos, a minoria que vive à custa da maioria pobre e remediada. Os comboios sempre cheios, com cada vez mais procura, dão prejuízo. A água bem essencial para todos é perseguida por aqueles que acreditam poder ser os senhores deste bem e com ele criarem riqueza deixando à sede o povo.

Povo que em 2019 ainda tem que garantir os seus direitos, que pensava garantidos. Trabalhadores que lutam para manter as conquistas que tanto custaram e que a cada dia que passa se vêem ameaçados. A precariedade que não permite a construção de uma vida, de uma família, de um caminho seguro. Os eternos estágios que não garantem emprego, que não garantem segurança económica, que não são garantia do sustento de sonhos profissionais.

Em 2019 continuaremos a ver os rios poluídos, os fogos de Verão a comer as nossas florestas, as monoculturas a dominar o nosso pequeno território que pode ser aproveitado para o regresso de uma floresta autóctone e que contribua para o desenvolvimento económico?

Porque estamos a caminho de 2019 resolvi fazer uma reflexão que é mais uma chamada de atenção.

Não se pense que não estou confiante. Que não tenho esperança. Acredito em 2019 porque acredito nas pessoas. Nos homens e mulheres da nossa terra. Porque acredito que juntos vamos conseguir.

É urgente levantarmos a cabeça e lutarmos pelos nossos direitos, por um país mais independente e por uma sociedade feliz e cooperante.

Feliz 2019!!!

Mariana Silva, 36 anos, licenciada em Estudos Portugueses e Lusófonos, na Universidade do Minho. É eleita na Assembleia Municipal de Guimarães desde 2009, eleita na Assembleia da União de Freguesias Oliveira do Castelo, São Paio e São Sebastião desde 2013 e membro do Conselho Nacional do Partido Ecologista “Os Verdes”.
Por decisão pessoal, a autora do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.