O 21.º dérbi oferece um Vitória e um Moreirense lado a lado, à espreita da Europa

Com a primeira volta do campeonato à beira do fim, os dois clubes mais bem sucedidos de Guimarães vão reeditar um dérbi cuja história se começou a escrever há 20 anos e um dia. Os cónegos começaram por fazer sensação na Taça de Portugal, mas, nos encontros da Primeira Liga, a supremacia vitoriana tem sido inequívoca. Nesta época, contudo, as duas equipas estão coladas na tabela classificativa, com o Moreirense a intrometer-se numa luta europeia que, teoricamente, só estava destinada ao Vitória.

Por Tiago Dias

O Estádio D. Afonso Henriques vai acolher, nesta sexta-feira à noite, o primeiro dérbi vimaranense da época. Vitória e Moreirense vão encontrar-se pela 21.ª ocasião, marcada pela campanha que o emblema da vila de Moreira de Cónegos, habituado a lutar pela permanência, tem até agora protagonizado. A equipa de Ivo Vieira atravessa a melhor série de resultados alguma vez conseguida pelo clube na Primeira Liga – quatro vitórias consecutivas, sobre Chaves (2-1), Boavista (2-1), Rio Ave (2-1) e Aves (1-0) – e é quinto classificado, com 28 pontos em 16 jogos. Os vitorianos estão logo na posição abaixo, com 25 pontos, um registo mais próximo do objetivo definido antes da época começar – o apuramento para a Liga Europa. O rendimento até agora apresentado pelas duas equipas parece indiciar um confronto equilibrado. Equilíbrio, porém, é algo que não tem marcado a história até agora escrita nos dérbis.

Um tomba-gigantes a triplicar

A história dos confrontos entre os dois emblemas revela uma supremacia vitoriana – o clube que ostenta a imagem de D. Afonso Henriques venceu 10 dos 20 encontros disputados, nos quais se registaram ainda cinco triunfos dos cónegos e cinco empates. Mas a tendência global nestas duas décadas em que Guimarães está dos dois lados do campo é contrariada pelos resultados dos três primeiros dérbis, disputados em épocas consecutivas, sempre para a mesma competição: a Taça de Portugal. O Moreirense venceu-os todos – 3-2, em 1998/99, 1-0, em 1999/00, e 4-3, em 2000/01.

Os caminhos dos dois clubes vimaranenses mais bem sucedidos cruzaram-se pela primeira vez em 10 de janeiro de 1999, na quarta eliminatória da prova rainha. Com 54 presenças no escalão principal e quatro idas à final da Taça até à data, o Vitória era então um crónico candidato à Europa – conseguira quatro apuramentos seguidos para a Taça UEFA, entre 94 e 98 -, mas começara mal essa temporada. O Vitória terminou a primeira volta no 10.º lugar, já depois do regresso de Quinito para substituir o treinador escolhido para essa temporada, Zoran Filipovic.

A turma de Moreira de Cónegos, já na altura presidida por Vítor Magalhães, disputava então a 2.ª Divisão de Honra (equivalente à Segunda Liga de hoje) pela quarta temporada consecutiva e consolidava uma posição no meio da tabela. Uma semana depois de ter concluído a primeira volta de 1998/99 no nono lugar, a equipa treinada por Carlos Garcia deslocou-se ao Estádio D. Afonso Henriques para uma festa da Taça vimaranense.

E houve mesmo Taça! Depois de ter eliminado o União da Madeira (2-0), na terceira ronda, o Moreirense derrubou o Vitória, num desafio em que comandou sempre o marcador. O primeiro golo desta história coube a Fernando Pires, um médio de 30 anos que já vivera outros dérbis, mas entre Vitória e Sporting de Braga. “Os jogos entre Braga são sentidos de forma diferente dos outros jogos, mas os jogos entre Moreirense e Vitória também, até pelos resultados conseguidos na altura”, recorda o ex-jogador, em declarações ao Duas Caras.

Depois de quase 200 jogos pelos arsenalistas e de passagens por Marítimo e Vitória de Setúbal, o antigo médio cumpriu três épocas (1997/98 a 1999/00) em Moreira. No primeiro dérbi de Guimarães, Fernando Pires inaugurou o marcador aos 17 minutos, antes de Gilmar repor a igualdade segundos depois. Apesar do ponta de lança vitoriano ter novamente igualado a partida aos 55 minutos, em resposta ao tento de Gilson, apontado aos 32, os cónegos decidiram a eliminatória num penálti convertido por Armando dos Santos, ao minuto 75. O Moreirense prosseguiu, depois, até aos quartos de final, onde viria a cair perante o futuro vencedor da prova, o Beira-Mar, no jogo de desempate – derrota por 1-0, em Aveiro, após empate a um golo, em Moreira.

Os defesas João Duarte, Altino e Serafim e o avançado Cristiano, todos do Moreirense, foram os jogadores que participaram nos três encontros da Taça de Portugal

As memórias dessa tarde soalheira de Inverno já não estão, todavia, muito claras na mente de Fernando Pires. Mas o golo que, na época seguinte, ditou novo triunfo cónego sobre o Vitória sim. “Recordo-me bem da grande penalidade que marquei e que decidiu o jogo dos quartos de final. Depois, tivemos de segurar o resultado em inferioridade numérica”, conta o antigo médio.

O dérbi realizou-se novamente no D. Afonso Henriques, em 09 de fevereiro de 2000, mas, num contexto diferente – os vitorianos seguiam em quarto na Primeira Liga, enquanto os axadrezados procuravam fugir ao espectro da descida. Ainda assim, Fernando Pires adiantou os cónegos aos 28 minutos e acabou expulso aos 40, por acumulação de amarelos. O Moreirense, então treinado por João Cavaleiro, terminou o jogo com oito unidades, mas aguentou a reação de um Vitória reduzido a 10 elementos e alcançou uma inédita presença nas meias-finais – ainda hoje é o melhor registo do clube. Foi, depois, eliminado pelo Sporting, com um golo de Ayew, no Comendador Joaquim de Almeida Freitas.

Na terceira ocasião em que eliminaram o Vitória, os cónegos, já com Manuel Machado ao leme, estavam na II Divisão B, a iniciar um trajeto que culminou na inédita subida à Primeira Liga, duas épocas depois. A jogar em casa perante um adversário então aflito na Primeira Liga, que acabara de mudar de treinador – Álvaro Magalhães rendeu  Paulo Autuori -, a equipa verde e branca estabeleceu o 4-3 final, graças a uma reviravolta operada com um bis de Nuno Cavaleiro. Os cónegos chegaram novamente aos quartos de final, onde foram eliminados pelo Boavista (2-1).

Este foi o último duelo entre as duas equipas para a Taça de Portugal, mas os embates para o principal campeonato de futebol não tardaram a chegar, e com resultados, por norma, bem diferentes.

No campeonato, tem mandado o Vitória

Vitória e Moreirense encontraram-se pela primeira vez para o campeonato em 14 de Dezembro de 2002, no final da primeira volta. O jogo decorreu em Felgueiras, no Estádio Municipal Doutor Machado de Matos, a casa emprestada dos vitorianos naquela época, e os axadrezados de Moreira de Cónegos estiveram a poucos minutos de conseguir mais um triunfo. Num campeonato onde o Porto de Mourinho foi dono e senhor, o Vitória lutava, naquela altura, com Benfica e Sporting pelo segundo lugar. O 3x5x2 de Augusto Inácio deu várias vezes espetáculo, mas empancou quando se deparou de novo com um Moreirense unicamente apostado em escapar à despromoção. Afonso Martins adiantou os cónegos aos 80 minutos, mas um penálti convertido por Fangueiro, já nos descontos, repôs a igualdade.

O primeiro triunfo vitoriano no dérbi concelhio só chegou na segunda volta, com os golos de Romeu e de Rubens Júnior a bastarem para a equipa de Augusto Inácio derrotar um Moreirense já tranquilo na tabela e praticamente garantir a quarta posição na Liga. Na época seguinte, a equipa trajada de branco derrotou o Moreirense pela primeira vez no D. Afonso Henriques (3-0), antes de uma série de três empates até ao final da temporada 2004/05, na qual os obreiros da subida do Moreirense – Vítor Magalhães, como presidente, e Manuel Machado, como treinador, estavam já ao serviço do Vitória. Os cónegos desceram e os vitorianos apuraram-se para a Taça UEFA, graças ao quinto lugar.

O primeiro desses empates ficou gravado na memória de quem a ele assistiu pelo golo de baliza a baliza do guarda-redes vitoriano, Palatsi: o pontapé longo bateu na meia lua da área cónega e sobrevoou o guarda-redes contrário, João Ricardo. “Fiquei incrédulo. Ao início, não vi que a bola tinha entrado e, depois, pensei que a bola tinha batido num jogador. Aquele golo foi claramente um engano”, recorda ao Duas Caras o antigo guardião francês, um dos futebolistas com mais dérbis vimaranenses realizados (seis), todos ao serviço do Vitória.

Armando, autor de três golos nos seis dérbis que realizou, repôs a igualdade aos 68 minutos, num encontra 25.ª jornada da época 2003/04, marcada pela luta do Vitória para escapar à descida de divisão e pela melhor classificação até hoje atingida pelos axadrezados no escalão principal – o nono lugar.

Palatsi é um dos jogadores com seis dérbis realizados ao serviço do Vitória, a par de Rogério Matias e de Douglas, guarda-redes que o pode ultrapassar nesta sexta-feira. Armando também realizou seis partidas, todas pelo Moreirense. Tito, Flávio Meireles e Rafael Martins disputaram o mesmo número de dérbis, mas por ambos os emblemas.

Depois de um interregno de sete épocas, período no qual o Vitória disputou uma temporada na Segunda Liga (2006/07) e o Moreirense chegou a cair para o terceiro escalão do futebol nacional, antes da retoma, os dérbis regressaram em 21 de Setembro de 2012, na quarta jornada da época 2012/13. A formação vitoriana, orientada então por Rui Vitória, venceu no Comendador Joaquim de Almeida Freitas graças a um tento solitário de David Addy, aos 58 minutos, e, posteriormente, venceu sete dos 10 dérbis que se realizaram desde então.

Um desses triunfos permitiu a subida do Vitória à vice-liderança do campeonato, durante a época 2014/15. Num jogo da 11.ª jornada, realizado em véspera de Pinheiro, no Estádio D. Afonso Henriques, o Moreirense de Miguel Leal entrou praticamente a vencer, após cabeceamento certeiro de Elízio, aos três minutos. O Vitória, todavia, empatou a partida ainda durante a primeira parte, com um penálti convertido por André André, e selou a reviravolta a oito minutos dos 90, num golpe de cabeça de Jonatan Álvez. Esse golo ditou o quinto triunfo consecutivo dos vitorianos, que acabaram por terminar a prova no quinto lugar.

Para a segunda volta, estava reservado o primeiro triunfo cónego no campeonato, também materializado com uma reviravolta: Alex abriu o marcador ao minuto oito, mas os golos de André Simões e de João Pedro, na segunda parte, desnivelaram a balança a favor da equipa da casa, numa fase da época em que os destinos de ambos os conjuntos já estavam praticamente traçados.

O Vitória – Moreirense, de 2003/04 (3-0), e o Vitória – Moreirense, de 2015/16 (4-1), são os dérbis com resultado mais desnivelado até hoje. Os cónegos, por seu turno, venceram sempre pela margem mínima. Já se marcaram 55 golos – 32 pelo Vitória e 23 pelo Moreirense.

O dérbi com mais golos estava reservado para a época seguinte: num embate disputado sob chuva, no início de janeiro, em Moreira de Cónegos, o Vitória venceu o Moreirense, por 4-3. Henrique Dourado foi a figura da partida, com dois golos apontados, e tornou-se num dos melhores marcadores do dérbi, ao marcar mais dois na segunda volta, no triunfo vitoriano por 4-1.

O outro futebolista com quatro golos nos dérbis é Paolo Hurtado. O internacional peruano representou o Vitória entre 2015/16 e 2017/18 e, nesse período, marcou dois golos que valeram dois triunfos pela margem mínima à sua equipa: 1-0, tanto em 2016/17, como em 2017/18, sempre no D. Afonso Henriques. Na época passada, o jogador bisou ainda num jogo do Grupo C da Taça da Liga para cumprir calendário, que terminou empatado a três bolas.

Um Vitória “normal” recebe o melhor Moreirense da história

O contexto que envolve o próximo dérbi vimaranense difere dos anteriores devido à primeira volta protagonizada até agora pelo Moreirense. “O Vitória tem feito um percurso de normalidade, no primeiro terço da tabela, à procura de um lugar de acesso a uma competição europeia. O Moreirense vive um período de anormalidade muito positiva. Os números são os melhores de sempre”, descreve ao Duas Caras Manuel Machado, antigo técnico dos dois clubes, mas também de Nacional, Académica, Sporting de Braga e Arouca.

O técnico considera que o emblema axadrezado soube, à partida para a época em curso, manter alguns elementos-chave da época transata e, ao mesmo tempo, completar o plantel com jogadores experientes como Halliche, Nené e João Aurélio e com “jovens com muito potencial”, como Ivanlido, Heriberto e Chiquinho. Manuel Machado elogiou também o trabalho desenvolvido pelo treinador Ivo Vieira e pela restante estrutura cónega. “É uma situação inesperada. Há que dar os parabéns aos jogadores, equipa técnica, administração e adeptos, porque o Moreirense normalmente procura fugir ao último terço da tabela”, salienta.

Apesar da rivalidade entre Vitória e Moreirense ser algo “disfarçada”, o vimaranense, de 63 anos, reiterou que os jogos entre as duas formações são sempre “momentos particulares”, com desfecho incerto, mas atribuiu o favoritismo à equipa orientada por Luís Castro devido ao ambiente criado pelo público vitoriano. “O ciclo positivo do Moreirense contrapõe-se ao ciclo negativo do Vitória, mas o ambiente que se vive no D. Afonso Henriques normalmente faz pender o resultado para o lado do Vitória”, antecipa.

Manuel Machado é o treinador que mais vezes participou nos duelos entre Vitória e Moreirense. Orientou os cónegos por cinco vezes, entre 2000/01 e 2003/04 e os vitorianos por duas, na época 2004/05.

Palatsi atribui igualmente o favoritismo ao Vitória, num jogo que, a seu ver, sobressai não pela rivalidade, como acontece com Sporting de Braga e Boavista, mas pela saudável vizinhança, com adeptos cónegos que gostam do Vitória e adeptos vitorianos que gostam do Moreirense. O antigo guarda-redes de Vitória, Moreirense (2005/06), Beira-Mar e Penafiel destacou, no entanto, que a turma de Ivo Vieira está “muito bem estruturada” e é “muito difícil de bater”.

Já para Fernando Pires, o dérbi desta sexta-feira encerra 50% de possibilidades para um Vitória “muito bem orientado por Luís Castro” e para um Moreirense que pode “sonhar com uma competição europeia”, graças ao trabalho de Ivo Vieira. Conheci-o na Madeira, quando joguei no Marítimo. É uma pessoa sensacional e um apologista do bom futebol. Gosta que as suas equipas joguem ao ataque, com todos os riscos que isso acarreta”, observa, antes de fazer uma comparação entre o que eram os cónegos há 20 anos e o que são hoje. “O clube está muito melhor, sobretudo em termos de infraestruturas”.

Duas equipas com vontade de vencer, mas sem pressão a mais

Na antevisão ao encontro de sexta-feira, os treinadores de Vitória e Moreirense realçaram que as suas equipas estão preparadas para vencer, mas sem qualquer pressão adicional face às classificações atuais. O timoneiro vitoriano, Luís Castro, disse que a sua equipa precisa de recuperar a porção de confiança que se perdeu com as derrotas frente ao Nacional e ao Belenenses, enquanto o técnico cónego, Ivo Vieira, alertou para a necessidade dos seus jogadores ultrapassarem o ambiente normalmente vivido no D. Afonso Henriques. Seguem-se alguns excertos das declarações dos treinadores.

Luís Castro

“É essencial retomarmos a confiança e colocarmos rigor em todos os momentos para chegarmos à vitória. O Moreirense é um adversário competente e o Ivo Vieira tem feito um trabalho fantástico. O Moreirense está no quinto lugar, um lugar muito procurado por nós, porque estamos em sexto. Queremos sempre o lugar que está logo acima”

“A vida não se faz de estatutos, mas de trabalho. O Moreirense é rival, porque é o próximo adversário e porque, neste momento, o Moreirense é uma das grandes equipas do campeonato. Merece muita atenção por tudo o que tem feito até hoje”

“Vão ser duas equipas a querer construir o jogo a partir de trás, sempre com a baliza nos olhos. Não fizemos isso de forma eficaz nos últimos dois jogos. Queremos muito mais deste campeonato daquilo que estamos a ter até agora e vamos à procura disso”

Ivo Vieira

“Temos de estar focados, independentemente do que existe à volta do jogo, com pessoas que gostam dos dois clubes vizinhos. Temos uma tarefa, que é lutar para somar pontos. Estamos conscientes de que vamos defrontar uma equipa muito boa, muito bem orientada, num campo em que o público puxa pela equipa, o que é uma contrariedade. Estamos preparados. Temos de acreditar no que vamos fazer, porque só faz sentido pensar na conquista dos três pontos”

“Os que estão melhor classificados têm um maior desafogo e jogam com mais confiança e liberdade. O Vitória não vai sofrer com a pressão de estar atrás, mas vai correr desalmadamente para igualar o número de pontos que temos. Temos de fazer pela vida para manter ou aumentar a vantagem. Um resultado negativo não coloca em causa o nosso trabalho e um positivo não nos coloca em bicos de pés”

Com maior ou menor pressão que uma ou outra equipa possa exibir, o certo é que a bola vai rolar sobre o tapete do D. Afonso Henriques, a partir de 21:15, em mais um duelo com muito branco e também com muito verde – essas são afinal as cores que compõem a bandeira do município de Guimarães.