Marcelo e o populismo

Com a massificação do uso das novas tecnologias, particularmente através das redes sociais, muitos dos que não possuíam atributos ou condições para opinar na comunicação social tradicional ou noutros espaços de intervenção pública, encontraram nas redes sociais, sobretudo nestas, a sua carta de alforria como comunicadores. Compreenderam que podem falar de tudo e de todos, prescindindo de filtros na linguagem que utilizam e, se lhes parece conveniente, para suprir a sua ignorância, assumem o insulto mais soez, quase sempre à sombra do anonimato. Muitas vezes expõem e defendem conceitos de vida em comunidade com um saudosismo passadista e primário que lhes povoa a mente e que assumem com oca e ignara vaidade. Se alguém mais elucidado arrisca, pedagogicamente, uma opinião contrária, logo é bombardeado com desbragada linguagem, afinal o trivial da sua vida pequena e sem horizontes. Esta realidade é uma das múltiplas facetas e trilhos que o populismo vem fazendo. Assume-se o insulto mais gratuito, destila-se ódio, incita-se à violência verbal, mas não se esconde propósitos de outros tipos de violência que marca este submundo.

Está em curso o aproveitamento deste perfil cívico e social que germina no seio de grupos de cidadãos que, por uma ou outra razão, cultivam legítima revolta, sentindo-se excluídos do mundo que os rodeia. O populismo, que faz cair governos democraticamente eleitos, se encontra alguém que lança mão daqueles métodos, arrasta consigo os mais incautos e simples, os deserdados da sorte, a quem as democracias tradicionais voltaram as costas. A manipulação a que hoje se assiste em vários países serve-se e alimenta-se destas fragilidades que os regimes democráticos permitiram. Há uma fatura a pagar que atingirá a maior parte da população de vários países quando esta, na sua maioria, coloca uma personagem com tais características à frente dos destinos de um país.

O Presidente Marcelo não tem nada a ver com este enquadramento simplista aqui descrito. Não apenas nas funções de Estado que agora exerce. Marcelo Rebelo de Sousa sempre foi um cidadão popular, sobretudo devido à sua participação regular e continuada na televisão. O estatuto que a Presidência lhe confere e o frenesim que sempre o caracterizou fazem dele uma personagem omnipresente, conotando-o com algum exagero, já que, o dizem, o cargo lhe deveria impor maior recato. Os últimos dias foram tão preenchidos por si no espaço público, polvilhado de vários matizes, que os que não apreciam tanta exposição mediática o criticaram, até com alguma acidez verbal. E mesmo aqueles que apreciam a sua forma de estar e exercer o cargo entenderam como exagero a sua participação inusitada num programa de televisão.

Assumamos que o Presidente Marcelo, ao resvalar para o exagero, deixou de ser popular e vestiu a pele de populista. Então, que vantagens brotam da sua conduta? Do meu ponto de vista a resposta é muito simples. Enquanto os populistas que proliferam em vários países do globo assentam a sua conduta e estratégia para alcançar o poder na perversidade que caracteriza tal modelo, o Presidente Marcelo faz da sua atividade cívica o sublime elogio dos afetos, que sensibiliza a maioria dos cidadãos. Sempre por onde passa, desde o Portugal profundo, que tanto defende, até ao mais requintado espaço urbano, o povo espera dele um sorriso, um abraço, um beijo, uma selfie. Todavia,  esta maneira de exercer o seu cargo e que já há muito lhe é reconhecida esconde infindáveis vantagens quanto à preservação dos valores que cultiva e que evidencia, até agora original na gestão da causa pública. O povo português que com o seu voto o elegeu pode apenas considerar a relevância das suas atitudes quase originais. De facto, para além de tudo o que se vê, o mais relevante é que o populismo dos afetos que tão bem exerce e gere, preenche o espaço onde, pela sua ação e presença, não há lugar para nefastos populismos que se agitam um pouco por toda a parte. Os populismos que guindaram ao poder Trump e Bolsonaro, Salvini e Maduro não têm chão livre entre nós. Alguns exageros que ressaltam da personalidade do carismático Presidente Marcelo são, apesar de tudo, extremamente relevantes no combate aos falsos valores de caudilhos de ocasião. Ocupando o terreno todo tem conseguido equilíbrios difíceis na democracia dos nossos dias.

Por tudo isto, pese embora um ou outro episódio mais recente, merece, julgo, dos portugueses o reconhecimento de um serviço pátrio, afinal o papel esperado de um Presidente da República de um país que quer preservar a democracia.

Guimarães, 17 de janeiro de 2019

António Magalhães