Síndrome da Avestruz

A avestruz padece de uma síndrome cómica: na presença do perigo, enfia a cabeça na terra supondo que não vendo a situação se esconde da consequência potencialmente fatal.

Felizmente andam por aí alguns políticos que sofrem da mesma síndrome: enterram a cabeça no húmus da retórica recoberta com números que de tanto serem espancados dizem exactamente o que se pretende deles, crendo que os livra de um corpo exposto por acções e inacções que os acusam mortalmente.

Digo felizmente porque os políticos não são todos iguais. Os espécimes mais atacados pela patologia supra são preciosos comparativos entre os que insultam a inteligência das pessoas para defender o partido a todo o custo e aqueles que colocam as suas convicções e as pessoas em primeiro lugar.

É mentira que o projecto para resolver o problema da rotunda de Silvares estivesse em execução na campanha eleitoral: o projecto foi adjudicado no início de 2018.

É mentira que se tenha feito tudo para resolver o problema da rotunda de Silvares: entre outras coisas, podia e devia ter-se exigido ao privado as contrapartidas definidas na aprovação do loteamento.

É mentira que a posição seja coerente: durante anos a fio se ouviu dizer que a Autarquia não fazia obras naquilo que era dos outros – recordo com tristeza que morreram pessoas na VIM por essa postura autista apesar dos avisos – e não consta que se tenha tentado resolver antes de 2017.

Andam de cabeça enterrada há tempo demais.

Mesmo quando o PS governou o país em mais de 18 dos 30 anos de governo local socialista, a culpa dos erros em Guimarães é sempre de um qualquer governo do PSD.

Novidade só que a culpa também é da evolução… porque trouxe mais carros com ela.

Cabeça enterrada mais fundo seria difícil.

Se hoje temos vários problemas sérios em termos de mobilidade – e eles estão bem à vista! – a responsabilidade é de quem governa Guimarães há 30 anos:  porque não previu, não antecipou e não planeou o futuro.

De quem abandonou os TUG a uma concessão sem um enquadramento estratégico ao nível da mobilidade.

De quem abandalhou o território numa gestão do território irresponsável e que hoje quase não tem margem para melhorar as acessibilidades Vilas-Cidade-pólos urbanos vizinhos.

De quem não acompanhou o inexorável fluir do tempo e se deixou apanhar na curva, na rotunda, na recta, em todo o lado: se entrar e sair da cidade é um calvário, chegar às Vilas, a Braga, Santo Tirso ou Famalicão é perder tempo de vida.

De quem sentindo-se pressionado enterra a cabeça na areia deixando um estudo, uma promessa, um projecto qualquer à vista.

Ele é o projecto em curso que não está em curso, ele é a obra do túnel no Verão que sabe-se lá se é mesmo, ele é a reabilitação da GNR em Lordelo e nas Taipas para nunca mais, ele é o encerramento da circular urbana que ninguém sabe como nem quando, ele é um Plano de Mobilidade Urbana Sustentável sem o prometido estudo sobre os transportes públicos…

Enfim, a culpa das coisas não acontecerem é de todos menos dos que mais culpa têm.

Quando tirarem a cabeça da areia, talvez tudo tenha passado.

Alexandre Barros Cunha, 34 anos, engenheiro civil de formação abraçou a gestão de operações por vocação. Tendo liderado a JSD em Guimarães e no distrito, é hoje deputado municipal, vice-presidente do PSD Guimarães e membro do Conselho Nacional do PSD.